Diversidade é uma palavra muito ouvida nos últimos anos, especialmente porque as chamadas minorias estão ganhando voz e conquistando um espaço que deveria sempre ter lhes pertencido. E diversidade é também aquilo que permite que mais ideias sejam agregadas em projetos e empresas - afinal, não ser igual ao colega do lado significa que as referências serão outras e, portanto, mais itens a serem acrescentados nos caldeirões da criatividade.

Mas essa palavra, apesar de ter ganhado destaque, ainda luta para se tornar algo real dentro de empresas. E quando o assunto é tecnologia, a luta se torna ainda maior.

O setor é conhecido por ser dominado pela ala masculina, por exemplo. Estudos apontam que, nos Estados Unidos, por exemplo, mulheres representam apenas cerca de 16% do total de engenheiros de software nas empresas.

Essa é uma das muitas porcentagens que o Pinterest quis aumentar internamente. Dentro da companhia, seus fundadores sabem que ter uma comunidade diversa de colaboradores significaria também um negócio mais forte, com equipes que constroem resultados mais inovadores e inteligentes.

E isso é uma arma especialmente poderosa quando se tem como clientes usuários de diversas partes do mundo, como é o caso do Pinterest. “[A base de] Usuários do Pinterest que cresce mais rapidamente é de fora dos Estados Unidos e, para atuais e futuros usuários, é importante que as pessoas que estão construindo nosso produto façam ele relevante para aqueles com diferentes backgrounds de etnia, físico, geográfico e social”, afirma Candice Morgan, líder de inclusão e diversidade no Pinterest.

A executiva entrou na empresa em 2016 exatamente para trabalhar nesse sentido e conta, em artigo do Harvard Business Review, o que aprendeu durante essa jornada para diminuir esse tipo de distância.

Traçar metas não é o bastante

É preciso que a explicação seja reforçada de tempos em tempos, afirma ela. Candice conta que “lançar metas de diversidade pública é um passo importante, mas alcançar tais objetivos requer acompanhamento intenso e regular por toda a organização”, diz, complementando que também não é um trabalho que deve ser deixado para o RH.

“Aprendemos que podemos fazer um progresso mais rápido se gerentes de contratação entenderem como a diversidade avança no nosso objetivo de construir um produto de classe mundial”, conta.

Nesse sentido, a empresa implementou um programa de treinamento para ajudar a quebrar visões que poderiam interferir na tomada de decisão durante uma contratação, por exemplo - algo que, às vezes, acontece de forma automática.

A ideia era criar gerentes inclusivos que contribuíssem com todo o trabalho que estava sendo desenvolvido. E esses treinamentos refletem também no dia a dia da equipe.

Abraçar a diversidade significa ficar confortável com o desconfortável

Quando se começa um trabalho de diversidade como o de Candice, é possível que grupos sub-representados fiquem céticos com relação a se realmente terão chance. Ainda mais que algumas empresas de TI favorecem alguns grupos em detrimento de outros.

A executiva partiu, então, do pressuposto de que alguns grupos escolhem pares que são parecidos com eles mesmos, como um espelho. "Decidimos pedir para que as pessoas optassem por conexões soltas em vez de referências". Dessa forma, eles incentivaram a escolha de profissionais diversos.

Além disso, é importante lembrar que diferentes grupos possuem diferentes necessidades. Deve-se ter esse cuidado de endereçar cada uma delas. E que gerentes de contratação também terão diferentes desafios a ser enfrentados nesse sentido.

A lição mais importante disso tudo foi a transparência. “Enquanto eu continuava a gerenciar diferentes percepções sobre essas mudanças, descobri que sendo explícita sobre a diversidade faz com que os funcionários estejam conscientes dos talentos sub-representados que não tivemos a oportunidade de nos conectar”, afirma Candice.

A diversidade torna a contratação mais eficiente

No ano passado, a equipe do Pinterest passou de 700 para 1,1 mil colaboradores. Nesse cenário, conta a executiva, muitos gerentes tentam alcançar resultados rápidos, sem perder tempo com a construção das equipes.

E "isso pode levar alguns a tomar decisão de contratação sem considerar uma lista mais ampla de candidatos", comenta. O que, como consequência, pode levar à falsa ideia de que focar na diversidade é perda de tempo, no sentido de tornar o processo mais longo.

No longo prazo, ter uma estratégia de diversidade já estabelecida torna o processo mais eficiente, na opinião de Candice. "Contratar a partir de uma lista de candidatos diversos nos fez mais reflexivos e deliberados sobre onde procurar candidatos, olhando para além das pessoas que vêm até nós através de redes”, ressalta. 

Diversidade requer alteração de curso

Candice aponta que, como qualquer nova ideia a ser implementada, ela pode ter consequências não intencionais e indesejadas. Como exemplo, ela cita estudos que mostram que a remoção de certos nomes de currículos pode evitar a discriminação. Mas pode também ter o efeito não desejado de "avaliadores tomarem decisões tendenciosas com base em outras pistas", diz ela.

No Pinterest, o objetivo agressivo de tornar 30% da força de trabalho de engenharia representada por mulheres se mostrou amplo demais. Candice conta que eles perceberam que não poderiam simplesmente aumentar o número de mulheres engenheiras de nível júnior, apesar da lista de talentos de nível mais baixo ser bastante diversa, porque eles queriam também garantir que mulheres fossem representadas em todos os níveis da empresa.

"Ao conversar com nossas atuais engenheiras, descobrimos que ter mais mulheres no topo diminui estigmas que perseguem mulheres nas posições juniores. É por isso que decidimos focar especificamente na contratação de mulheres de nível sênior no final do ano, em um processo menos, mas vital", conta Candice.

Por fim, a executiva comenta que não há manual a ser seguido. No fim das contas, todos estão trabalhando juntos para desenvolver uma empresa mais diversa.

"Com as lições acima, nossa companhia está atraindo talentos que sabem que estamos defendendo a diversidade e o valor que isso traz ao nosso produto. Eles estão vindo porque também acreditam nisso", encerra.