Filho de judeus com ascendência romena, Stanley Martin Lieber não tinha superpoderes ou um nome bacanudo — como Peter Parker, Matt Murdock ou Bruce Banner. Mas, durante 2 décadas, liderou a expansão de um simples departamento dentro de uma editora e o transformou em uma corporação multimídia com influência suficiente para que você saiba que os nomes citados acima são os alter-egos de Homem-Aranha, Demolidor e Hulk. Todos, claro, criados pelo próprio Stanley. Seguindo o roteiro de Stan Lee — nome de herói do editor-chefe da Marvel —, a empresa levaria suas marcas registradas para além das páginas impressas em papel barato.

Mas, antes de voltar ao protagonista desta coluna, é importante falar sobre a "Distinta Concorrência". Ou melhor, sobre a DC Comics. Antes da editora, as HQs eram publicadas apenas em tiras, nos jornais diários. Com o sucesso dos heróis com a cueca por cima da calça, a companhia deu início ao primeiro boom no mercado de comics norte-americano. A chamada "era de ouro". Impulsionada por Superman, Batman e outros, a DC estava dando uma surra na rival.

Parte da culpa era do próprio publisher da Marvel, Martin Goodman. O cara tinha duas regras: 1) se algo vende, continue fazendo até saturar o mercado, e 2) fãs não ligam para qualidade. Com um tantinho de insubordinação, Stan Lee conseguiu virar esse jogo. Primeiro, sacou que a linha de produtos editoriais precisava de empatia. Por mais bem-sucedidos que fossem, os heróis da DC eram muito perfeitinhos, comercial de margarina style. O Superman, por exemplo, é quase um deus. Lee revitalizou personagens antigos e criou os seus próprios, e todos eles tinham suas desventuras. O Homem-Aranha é um exemplo clássico: vive às voltas com um chefe abusivo, nunca tem grana para o aluguel e sofre bullying na escola. Em Marvel Comics – A História Secreta, o escritor Sean Howe conta que a principal influência de Lee foi fazer com que os quadrinhos deixassem de ter como público-alvo principal as crianças e se tornassem a companhia favorita dos adolescentes e jovens adultos. O apelo entre os "misfits" era tanto que, em uma matéria de 1965 da revista Esquire, Hulk e Homem-Aranha são listados como heróis dos campus universitários gringos, ao lado de ninguém menos que Bob Dylan.

A empresa ainda manteve sua expansão graças às comunidades que criou em torno de suas revistas. Porque era uma grande falácia a história de que os fãs não se importam com qualidade, e Stan Lee ouvia seus leitores. O primeiro passo nessa relação foi uma seção de cartas na qual o próprio Lee escrevia (ou supervisionava) as respostas. Sim, aquelas dúvidas do tipo: "quem é mais rápido: o Mercúrio ou o Superman, os dois a 80 km/h?". Nem é preciso ter a inteligência do Professor X para sacar que a identificação com problemas reais e o senso de comunidade deram origem ao que chamamos de fandom — grupo de admiradores de qualquer produto cultural ou marca. Os resultados foram chamados de "era de prata" dos quadrinhos e, nessa época, deram um belo troco na concorrência.

Dá para dizer que, no final da história, o moço Stanley revelou seu superpoder: a visão necessária para saber que suas pulp fictions podem ir além das comic shops. E que dar aos fãs produtos com os quais eles possam se relacionar paga as contas.

CEO 24/7: Stan Lee tinha superpoderes? via The Brief