Se as ideias são boas, a idade pouco importa: o argentino Rodrigo Teijeiro é jovem, mas já acumula grande bagagem na área de tecnologia com negócios, que chamou a atenção de peixes grandes da indústria.

Há 15 anos, ele criou uma rede social para bandas independentes e, ao longo do tempo, assumiu empreendimentos, como uma rede para empreendedores (EO Argentina) e uma empresa de tecnologia focada na criação de negócios (Fnbox.com). Seu empreendimento atual é o RecargaPay, basicamente uma carteira embutida no smartphone. Nela, usuários podem recarregar telefones pré-pagos de forma digital, inclusive sem precisar de bancos tradicionais, mas a ideia é expandir o serviço para oferecer pagamento de contas como luz, água e gás, tornando pagamentos digitais acessíveis para todos. Até o momento, já são cerca de 1,5 milhão de consumidores da plataforma na América Latina.

Vindo de uma família cheia de acadêmicos, inclusive um pai com PhD em Economia, ele fez o que parecia impensável, mas que é sonho de muita gente: largou os estudos para começar um projeto online. E, além de saber analisar o mercado, é preciso ter força de vontade: o conceito de empreendedorismo ainda não era comum na região quando Teijeiro dava os primeiros passos no mundo dos negócios. Além disso, não havia a influência de nomes como Mark Zuckerberg ou Larry Page.

A seguir, confira o papo do TecMundo com o empreendedor.

TecMundo: Quais foram suas principais inspirações, experiências e projetos no mercado?

Rodrigo: Tive uma oportunidade muito especial, a sorte de viver em um momento único da história para poder entrar na era da tecnologia. Meu primeiro empreendimento foi inspirado em uma empresa chamada Etrade, que autorizava vender e comprar ações. Depois de ter tido meu primeiro sucesso aos 20 anos, comecei o meu projeto seguinte e deixei a faculdade. Obviamente, meus pais queriam me matar, porque, sendo filho mais velho, não terminar a faculdade parecia algo terrível. Mas, mesmo assim, eles me apoiaram na minha decisão.

Após essa tentativa que não deu certo, decidi começar um novo empreendimento com cartões de telefone pré-pagos, após ter me mudado para os Estados Unidos. Esse negócio foi imediatamente rentável, e faturávamos aproximadamente US$ 10 milhões. Essa história de sucesso me motivou a continuar criando e, assim, comecei um novo projeto: a Sônico, uma rede social regional que atingiu 25 milhões de usuários registrados. Ela foi vendida recentemente à plataforma Match.com, e hoje concentramos nossos esforços no RecargaPay.

Você tem projeções para o mercado de tecnologia da América Latina nos próximos anos?

As oportunidades para a região existem, vai depender da capacidade dos empreendedores de saber aproveitá-las. Dado que nela a penetração de smartphones supera outros produtos cotidianos, como carros ou restaurantes, os novos modelos de negócios giram em torno dos celulares.

Podemos ver essa mudança especialmente quando analisamos a indústria bancária tradicional, que está perdendo prestígio entre as gerações mais jovens. Essa perda de confiança, aliada à conectividade dos celulares, é o que nos faz acreditar que estamos entrando em uma época marcada pelos pagamentos móveis. Uma vez que esteja consolidada a reputação, os novos meios de pagamento vão começar a emergir novos empreendimentos.

Veremos empresas com potencial de impacto global surgindo por aqui?

O potencial que vemos na América Latina pode ser entendido de forma fácil quando analisamos o tamanho do mercado. Por mais que a América Latina tenha a metade da população da Índia, o gasto per capita dos consumidores é 6,6 vezes maior. Dado o tamanho do mercado e que, com poucas ferramentas, podemos revolucionar indústrias tradicionais, é muito provável que comecemos a ver startups da América Latina gerando impacto e valor na economia global.

Para entender por que agora a região está mais equipada do que nunca, temos que entender duas coisas. Primeiramente, que os computadores incrementaram a produtividade do trabalho, e, em segundo lugar, a internet democratizou o acesso à informação igualando as oportunidades para os empreendedores.

Quais são as ideias que têm inspirado novas gerações de empresários?

Hoje em dia, os empreendedores estão inspirados em reduzir as brechas que existem na população. Há grandes desigualdades entre as regiões, especialmente na inclusão na era digital, e isso não vai desaparecer se não houver ideias inovadoras e colaboração entre os distintos setores da sociedade.

Sabemos que a maioria dos problemas no mundo se resolve com o crescimento da economia, e isso depende da produtividade. Já ela depende, por sua vez, da tecnologia. Ser empreendedor é ter a consciência de que cada um de nós tem a habilidade de igualar os sonhos de pessoas que antes estavam excluídas da economia mundial. O impacto que podemos gerar através da conectividade nos lares das pessoas, com uma simples ferramenta, é o que nos motiva a continuar inovando.

Muita gente se inspira em quem decide começar projetos e imaginar ideias de impacto. Que dicas você daria para essas pessoas que querem se aventurar no mercado digital?

Em primeiro lugar, quando decidimos empreender, temos que nos perguntar que valor estamos gerando na sociedade, como estamos melhorando a vida das pessoas para quem queremos fornecer o nosso serviço. Em segundo lugar, é preciso entender a dificuldade que implica criar e fazer crescer um negócio. O caminho vai estar cheio de dificuldades, e é possível que tenhamos dúvidas e que algumas apostas não deem certo. Por isso, não aconselho ninguém a arriscar algo que não esteja preparado a perder. Mas, por mais difícil que seja o caminho, nada se compara a ver a nossa ideia dar frutos.

Por último, é preciso ser disruptivo dentro da disrupção. Os líderes do mercado de ontem podem não ser os mesmos de amanhã, as inovações acontecem de forma muito mais rápida do que há 15 anos. Estar preparado para pensar além deve ser o norte de todos aqueles que pretendem continuar em atividade. A tecnologia se reinventa, e por isso temos que nos reinventar constantemente.