Foi numa viagem ao Maranhão que conhecemos Will Cunha. Sujeito simples, de 25 anos, com uma fala mansa de quem nasceu em Penalva, interior do estado, mas jeito agilizado de quem aprendeu o que é empreender na marra. Dos 15 anos 18 anos, foi mototáxi em sua cidade natal. Depois, se tornou motorista e passou a dirigir 700 km por dia levando pessoas e mercadorias a municípios vizinhos. Aos 23, se mudou com a esposa para São Luís, com a missão de fazer um curso de instalação de ar-condicionados.

O sonho era abrir uma prestadora de serviço de climatização, mas as aulas não ajudaram. Apesar de ter gastado boa parte de suas economias com elas, foram "pura enrolação". Decidiu que iria conhecer o mercado do jeito roots: se tornando aprendiz de um profissional da área. Começou trabalhando de graça. Às vezes não tinha dinheiro para almoçar. Aos poucos, foi ganhando a confiança do chefe. Em alguns meses, passou a receber com 40% do valor dos serviços que prestava. Depois, quando o cara se aposentou, ganhou a lista de clientes dele.

Mas aí veio a vida: um divórcio o obrigou a voltar para o interior. E foi por lá que ele se deparou com a biografia de Steve Jobs, do brilhante Walter Isaacson. Mas se engana quem pensa que essa é uma recomendação de livro. Nas palavras do próprio Will: "se você lê aquilo, você vira um louco". E louco foi o que ele virou. Sem emprego, dinheiro para o aluguel ou para pagar a prestação do carro, deixou de pensar nos seus problemas e focou em encontrar uma solução. Uma solução não só para ele, mas para os diversos prestadores de serviço espalhados pelo estado, que tem pouco espaço para exibir seus serviços.

Pensou num site, quer dizer, num market place - mas essa palavra ainda era desconhecida pelo protagonista desta história. Com um bocado de ajuda da internet, encontrou e contratou uma equipe de desenvolvedores freelancers. Para pagar, vendeu o PlayStation3 e uma corrente de ouro. Mas aí veio a vida de novo: o sistema ficou ruim, não funcionava direito e uma mudança precisaria de mais dinheiro. A mãe, sabendo do problema, mandou um "deixa comigo" mesmo não tendo a grana em mãos. No final do dia, Will tinha R$ 2 mil em sua conta. O novo site chegou, mas, cara ainda estava longe de ser eficiente. Precisava de melhorias - e, claro, mais dinheiro.

Will sequer sabia o que era investimento-anjo, mas resolveu bater na porta de uma antiga cliente para pedir um aporte. Foi qualquer coisa no pitch que fez, sem saber que estava fazendo um pitch, que convenceu a médica, dona de um hospital, a colocar R$ 200 mil na ideia. Daí veio a vida parte III: ele descobre que a mãe havia pegado dinheiro com um agiota para dar a ele. Contou a parada toda para a investidora ("que foi anjo mesmo") e recebeu R$ 50 mil para seus custos de vida. Com a grana, o negócio mudou: se tornou um aplicativo, o WillBook. Em um mês, foram 3 mil downloads e 20 atendimentos realizados por dia.

De lá para cá, Will reformulou o app. Hoje, o WillBook sugere profissionais por geolocalização, mostra os orçamentos do serviço (de maneira que o cliente não precisa levantar do sofá para comprar nenhum material) e acompanha o desenrolar do atendimento. Todas essas foram necessidades que o empreendedor encontrou durante seu tempo como aprendiz. Fazem sentido. Tanto, que ele já conseguiu mais R$ 1 milhão em investimento e se prepara para lançar a versão iOS do sistema.

Em fevereiro, o cara viaja para os Estados Unidos, em sua primeira saída do país. O objetivo é encontrar Elon Musk e convencê-lo a investir nas minas de cristais de quartzo do Brasil, por meio da SolarCity. Louco? É, para c#ralho. Mas a gente tem de ser louco às vezes.

Contando essa história para um dos chefes aqui na firrrma, o Felipe Simões, ouvimos uma das coisas mais massa que a vida de empreendedor ensina: todo mundo tem seus problemas para levar nas costas. O que vale no final das contas é a explosão que faz você se mexer. A gente não sabe o desenrolar da saga do Will, se a WillBook vai bombar ou se ele vai conseguir encontrar Musk. Mas que ele explodiu... ah, ele explodiu.