A Google e a Uber sempre mostraram ser rivais quando o assunto são veículos autônomos. Mas, antes disso, alguns emails trocados entre o ex-CEO da empresa de compartilhamento de carros, Travis Kalanick, e Larry Page, o cofundador da gigante das buscas, mostram que as companhias estavam com planos de fechar uma parceria nesse sentido — mas algo deu errado.

Deu tão errado que a Waymo, empresa responsável por toda a operação de veículos autônomos da Google (ambas são controladas pela Alphabet), entrou com processo contra a Uber. E foi por conta desse processo que a empresa de Kalanick liberou esses novos emails como provas para serem juntadas aos autos.

As mensagens datam de 2015 e mostram que Page estaria evitando encontros com Kalanick, que, por sua vez, estaria suspeitando de que o executivo da Google, na verdade, estaria com planos de entrar para a concorrência. O então CEO da Uber teria dito suas suspeitas a David Drummond, que é chefe de negócios da Google e, na época, também fazia parte do board da Uber.

"Uma reunião com Larry poderia acalmar isso se não for verdade, mas ele tem evitado qualquer encontro comigo desde o outono passado", escreveu Kalanick em um email de março de 2015. Três dias depois, os dois executivos, Page e Emil Michael, antigo chefe de negócios de Uber, se encontraram para o almoço.

Depois, as coisas desandaram e terminaram nessa disputa.

Entenda o caso

Tudo começou com a compra da Otto pela Uber.

A Otto é uma startup fundada pelo antigo chefe da divisão de carros autônomos da Google, Anthony Levandowski, que deixou a gigante da tecnologia para dirigir seu próprio negócio de veículos do tipo, com foco em caminhões. Alguns meses depois, onde o executivo foi parar? Na Uber. Levandowski fechou um acordo de aquisição, se tornando o responsável pela operação de veículos autônomos dentro da empresa de compartilhamento de carros.

Acontece que o executivo, antes de deixar a Google, teria feito o download de 14 mil arquivos (mais de 9 GB) com conteúdo confidencial, incluindo testes e dados sobre uma tecnologia de sensores ópticos de detecção remota (conhecida pela sigla LIDAR, ou Light Detection And Ranging, em inglês) desenvolvida pela Google.

Um parênteses: essa mesma tecnologia é a responsável por permitir que carros autônomos consigam "visualizar" os arredores e evitar colisões. A indústria de LIDAR é extremamente lucrativa, e é por isso que muitas companhias de TI estão trabalhando para desenvolver sua própria tecnologia, conseguindo vantagem competitiva.

E foi então que a empresa de Mountain View decidiu agir. Em fevereiro deste ano, a Waymo entrou com um processo contra a Uber, acusando a companhia de roubo de propriedade intelectual e infringimento de patente.

As duas foram ao tribunal em maio deste ano discutir o caso. Na época, vale dizer, Levandowski foi chamado e chegou a invocar a Quinta Emenda  que, na lei dos Estados Unidos, é o direito que um acusado tem de ficar calado para não se autoincriminar.

A Uber, por sua vez, afirma que, quando teve conhecimento sobre os arquivos, pediu que Levandowski os destruísse  ele teoricamente teria feito isso, mas a companhia não apresentou provas de que, de fato, eles não existem mais. Ou seja, ninguém sabe o que aconteceu com os arquivos até o momento.

Agora, esses emails de parceria entram como novas provas para análise. Considerando as novas documentações, a Uber então questiona o real motivo pelo qual a Google teria entrado com o processo:

"Não há substituto para essas deposições, o que resolveria algumas questões-chave sem resposta. Por exemplo: por que, depois de a Google ter conhecimento do suposto download de 14 mil arquivos, o Sr. Page não alertou o então CEO da Uber para esse fato quando se falaram? Simultaneamente, a Google estava rejeitando uma parceria com a Uber, escolhendo a competição. Isso  e a falta de evidência que dá suporte ao caso da Waymo  levanta a questão óbvia: esse processo realmente foi motivado pelo download dos arquivos ou foi uma tentativa de desaceleração de um competidor?", diz o comunicado enviado à Business Insider.

A Waymo, por sua vez, contesta. "A Uber continua a descaracterizar as nossas reivindicações, a fim de distrair as pessoas do ponto principal, que é o fato de a Uber estar usando segredos roubados da Waymo para implementar sua própria tecnologia", disse um porta-voz da empresa também à Business Insider. "Estamos ansiosos em apresentar nossas evidências ao julgamento e aguardamos respeitosamente a decisão do Tribunal sobre os pedidos de deposição da Uber".

Parece que a disputa vai longe.