Notícias falsas ganharam um destaque especial após polêmicas divulgadas sobre manipulação da opinião pública. Vide o popular e recente caso das eleições dos Estados Unidos em 2016, que foi recheada de notícias falsas - algumas delas desmereciam a então candidata do Partido Democrata Hillary Clinton. Muitos afirmam, inclusive, que a ascensão do agora presidente Donald Trump aconteceu exatamente pela popularidade dos falsos artigos publicados (e amplamente compartilhados) em redes sociais.

Mas o fato é que os Estados Unidos não são os únicos a utilizar esse tipo de "recurso". De acordo com recente estudo realizado pelo Computational Propaganda Research Project da Universidade de Oxford, usar plataformas sociais populares, como Facebook, Twitter, Instagram e outras, para disseminar notícias falsas se tornaram uma prática política realizada por dezenas de países. E mais: a técnica ganhou também o uso de bots, além dos escritores humanos, para ampliar o alcance dessas campanhas de desinformação.

Para se ter uma ideia dessa evolução, robôs virtuais são responsáveis por publicar 1 mil vezes mais postagens por dia do que um humano comum poderia fazer.

"A propaganda governamental evoluiu com a mídia social e cresceu junto com ela", afirma Philip N. Howard, professor da universidade e coautor do estudo intitulado "Tropas, trolls e fabricantes de problemas: um inventário global da manipulação organizada de redes sociais", que estuda a ascensão dessa prática em 29 países.

Determinadas regiões do globo, como México, Israel e Reino Unido, foram apontadas pelo estudo como locais em que a disseminação de notícias falsas se tornou algo bastante popular.

No México, por exemplo, bots e usuários humanos são usados para criar notícias contra jornalistas locais, bem como desinformar a população nas mídias sociais. Já no Reino Unido, é uma prática comum a publicação de falsos vídeos do YouTube, em uma tentativa de impedir que muçulmanos no país se tornem radicais e se unam à guerra da Síria.

O destaque maior vai para a Rússia, que possui os melhores instrumentos quando se trata de fazer propaganda em redes sociais. Apesar disso, o estudo mostra que as eleições dos Estados Unidos ganharam de todos os lugares em sofisticação.

Como dito no início do texto, a campanha de Trump foi sem precedentes e o uso de bots foi mais eficiente do que robôs que participaram dos esforços para apoiar Hillary - especialmente nos dias finais da campanha.

Popularidade

As últimas eleições dos EUA foram a porta de entrada para que essa sofisticação chegasse a campanhas em outros países.

Outro relatório feito por Emilio Ferrara, pesquisador da Universidade de Southern California, dá suporte à essa afirmação apontando as eleições da França como também uma das grande utilizadoras da estratégia com bots.

No estudo, Ferrara analisou 17 milhões de tuítes e identificou robôs fora da França que focavam postagens em diferentes preocupações - que divergiam de problemas endereçados por usuários humanos franceses. O levantamento sugere a possível existência de um "mercado negro para reutilização de bots de desinformação política".

"A grande maioria das pessoas.. ficaria surpresa com a forma como essas plataformas são usadas para manipulação política", diz Ferrara.

Infelizmente, na opinião do especialista, as redes sociais não estariam fazendo o suficiente para bloquear esses conteúdos - e, por isso, o crescimento da prática no mundo todo.

Só um adendo

Você pode ter se perguntar “mas porque, então, as grandes empresas de tecnologia não fazem algo para barrar o crescimento das fake news?”. Elas estão fazendo.

O Facebook recentemente declarou guerra aos falsos conteúdos disseminados na rede. "Notícias falsas são prejudiciais para a nossa comunidade, torna o mundo menos informado e destrói a confiança. Não é um fenômeno novo, e todos nós - empresas de tecnologia, de mídia, redações e professores - temos a responsabilidade de fazer a nossa parte e endereçar essa questão", disse a empresa quando anunciou seus esforços no combate contra a desinformação na rede.

O Google também anunciou no início do ano uma nova ferramenta para checagem de fatos, dando a possibilidade a usuários de identificar as fake news. Mas a batalha ainda será bastante longa.

Um dos motivos para que esse tipo de prática tenha se popularizado é o fato de que ela se tornou rentável e até mesmo profissional. Apesar de muitas das notícias falsas disseminadas por aí sejam criadas por adolescentes da Macedônia, por exemplo, existem outras diversas empresas que são especializadas em bots para campanhas - de acordo com o estudo “Mídia social e notícias falsas na eleição de 2016”, publicado no Journal of Economic Perspectives, da Associação Econômica Americana, alguns sites utilizados nas eleições de 2016, por exemplo, nem existem mais, já que cumpriram com o seu objetivo.

O relatório cita a empresa norte-americana chamada de Disinformedia, que, na época do estudo, era responsável por diversos sites feitos especialmente para o propósito de desinformar: NationalReport.net, USAToday.com.co, WashingtonPost.com.co. Percebem a sutileza com que o endereço dessas páginas falsas foram criadas, a semelhança que elas têm com sites originais? Hoje, as páginas estão fora do ar.

O intuito de sites falsos, de acordo com os especialistas responsáveis pelo levantamento, não é apenas a desinformação. Mas eles também podem gerar uma receita significativa por conta do alto número de cliques. "Essa parece ser a principal motivação para a maioria dos produtores que tiveram suas identidades reveladas", dizem os autores da análise.

A segunda motivação é ideológica. "Alguns falsos fornecedores de notícias buscam favorecer os candidatos que eles apoiam", diz o documento. Ou, ainda, para sujar a imagem do candidato que eles não gostam.