O crescente uso de robôs para tarefas repetitivas e de baixa habilidade na indústria da tecnologia está causando um efeito inesperado. As vagas para profissionais estão se tornando cada vez mais complexas e exigindo execuções rápidas. Diante desse cenário, a maioria dessas pessoas vem se encaixando no termo batizado de “lacuna de habilidades”. 

O problema se refere à escassez de habilidades difíceis em áreas que lidam com grandes quantidades de dados ou de inteligência artificial. Também remete à ausência de habilidades comuns, chamadas de pessoais, nesse mesmo segmento. 

Habilidades pessoais são um conjunto de características de personalidade produtivas que permitem que as pessoas interajam umas com as outras de forma eficaz. Elas são listadas como comunicação forte, alta inteligência emocional, autoconfiança e pensamento analítico. 

Um levantamento feito pela empresa de RH Manpower Group indica que 36% de um grupo de 42 mil trabalhadores indianos citaram a falta dessas habilidades em seus repertórios profissionais como fatores decisivos para não terem sido escolhidos para uma vaga de emprego. 

No passado, empresas de tecnologia da informação contavam com equipes de mais de 100 pessoas. Nesse cenário, apenas os gerentes interagiam com clientes. Após a chegada das máquinas e da automação, o número de profissionais caiu, forçando uma adaptação brusca dos que sobraram nas empresas. 

Assim, é esperado que todos os funcionários interajam entre si e contribuam de forma significativa para a empresa, em vez de apenas receber ordens e as cumprir.

Segundo um relatório da Economist Intelligence Unit de 2015, companhias indianas estão desesperadas em busca de engenheiros e desenvolvedores de software para atender seus clientes estrangeiros.

“Cada vez mais aparecem candidatos que não estão preparados para esses cargos. A má resolução de problemas, o pensamento lateral, a comunicação, as habilidades de tomada de decisão e a incapacidade de trabalhar em equipe estão listadas entre as falhas mais significativas”, completa o estudo. 

Diferencial

Em entrevista ao portal Quartz, o gerente de RH da Boyden, Dinesh Mirchandani, ressaltou a necessidade de os profissionais mostrarem seus lados humanos. “Em um mundo onde as máquinas estão ganhando, o modo como as pessoas se destacam é se concentrando em coisas que as tornam mais humanas”, disse Dinesh.

Segundo ele, a empatia e a imaginação são fundamentais para reconhecer problemas a serem solucionados e também para aplicar de forma criativa a tecnologia diante dessas dificuldades. Nesse aspecto, a população da Índia vem falhando miseravelmente.

A língua inglesa é uma das habilidades pessoais mais requisitadas na indústria de tecnologia no país. A maioria dos engenheiros que se candidatam nas grandes empresas vem de cidades pequenas, onde raramente o inglês é ensinado na escola para as crianças.

“Quando os clientes estão nos EUA ou na Europa, o inglês é a única língua comum, e os profissionais acabam tendo dificuldade em se comunicar com clientes por escrito e por via oral”, contou Kris Lakshmikanth, fundadora da empresa de recrutamento executiva Head Hunters India. 

No passado, as instruções para o desenvolvimento de um determinado produto eram passadas com semanas de antecedência para que os engenheiros traduzissem todos os passos antes de começar a produção. Hoje em dia, o processo requer muito mais agilidade.

“Atualmente, a tecnologia, como está sendo desenvolvida, é muito mais atual e oportuna. O desenvolvimento ágil é a maneira de trabalhar em colaboração com as equipes todos os dias, seja em uma reunião pessoal ou por vídeo ou áudio”, disse Ed Szofer, CEO da SenecaGlobal, uma companhia de terceirização de serviços.

Educação cultural

Outro aspecto que vem prejudicando a carreira de jovens engenheiros indianos é sua educação. Nas escolas, raramente um estudante é encorajado a questionar seu professor em qualquer tipo de assunto, por mais que ele possa vir a ter razão. Sendo assim, o debate dentro de sala de aula é extremamente raro, o que se transforma em uma desvantagem enorme para o jovem no ambiente profissional. 

Os trabalhadores do segmento na Índia são muito mais hierárquicos e subordinados do que seus colegas em outros países. “Eu te ouço, mas não te entendo. Mesmo assim, não vou me opor a você por causa da forma como eu fui educado”, disse Szofer sobre a forma como os profissionais reagem às dificuldades nesses casos na Índia. 

“Nossos clientes precisam de inovação, precisam ser desafiados”, completou o CEO, que defende uma mudança no sistema de educação do país, seja em escolas ou nas universidades. “Se você não desenvolver essa habilidade, não encontrará espaço dentro dessa indústria”, encerrou.

Como resolver?

Algumas empresas vêm implementando aulas de inglês com professores particulares para seus funcionários. Além disso, as companhias usam as plataformas digitais para criar vídeos de treinamento em inglês em aplicativos.

Já o governo da Índia está tornando obrigatório estágios para estudantes universitários para melhorar sua compreensão do setor antes de se profissionalizarem por completo. Algumas companhias como Tata Consultancy Services e Infosys já fecharam acordos com faculdades para abrir centros de treinamento internos para aspirantes.