Vou te propor um desafio. Eu duvido que o seu celular não esteja na sua mão ou do seu lado exatamente agora enquanto você está lendo esse texto. E vou ainda mais além! Duvido que você não vai dar checada nele depois de acabar aqui, isso se já não o fez antes. A nossa dependência em relação aos celulares está se tornando uma realidade e foi assunto de um estudo publicado no Journal of the Association for Consumer Research. 

De acordo com a pesquisa, a simples presença de um celular próximo à pessoa já é capaz de afetar sua cognição. Especialistas descobriram que o aparelho exige atenção do seu dono mesmo quando ele não o está usando. A pessoa simplesmente pensa inconscientemente no smartphone. Bizarro, né?

O estudo aponta que, mesmo estando longe do dono, desligado ou configurado no modo silencioso, o celular é capaz de reduzir a memória de trabalho da pessoa e suas habilidades de resolver problemas. Esse efeito é mais forte em pessoas declaradamente dependentes de seus celulares. 

Poucos indivíduos percebem que estão dando atenção sem querer ao celular. O estudo contou com voluntários que relataram não ter se distraído com os aparelhos, mas os resultados mostraram que a atenção deles não estava totalmente no teste.

“Nós temos poucos recursos de atenção, então usamos alguns deles para direcionar os restantes para o lado certo. Normalmente, coisas diferentes são importantes em contextos diferentes, mas algumas, como seu nome por exemplo, possuem um status privilegiado. Celulares estão entrando nesse caso”, explica Adrian Ward, autor do estudo. 

“A ideia de que os celulares são relevantes o tempo todo os colocou nesse patamar”, continuou o psicólogo. Sendo assim, se você permitir que o seu smartphone tenha tanta importância, ele vai entrar no seu subconsciente, e você se lembrará dele a todo instante, assim como do seu próprio nome. 

Durante o estudo, Ward e seus colegas analisaram a performance de mais de 500 estudantes em dois testes diferentes de memória e atenção. No primeiro, alguns participantes foram instruídos a deixar seus celulares no modo silencioso sem vibração e colocá-los dentro da bolsa ou em cima da mesa. Já outros foram convidados a deixar todos os seus pertences, incluindo os telefones, fora da sala. 

No segundo experimento, os alunos poderiam deixar o celular dentro das malas, nas mesas ou fora das salas. Enquanto isso, outros tiveram que desligar os aparelhos, independentemente de onde eles ficariam.

Nas duas experiências, os jovens que deixaram os telefones fora da sala tiveram desempenho melhor no teste. Eles ainda acharam as questões mais fáceis apesar de terem dito que a ausência do celular por perto não fez diferença. A maioria das respostas dos jovens, quando questionados sobre seu desempenho, não citou efeitos da distância dos telefones.

Professor de psicologia na Universidade da Califórnia, Daniel Oppenheimer notou essa característica não apenas em celulares, mas também em outros aparelhos eletrônicos. Em seus estudos, ele percebeu que alunos que fazem anotações à mão lembram da matéria melhor do que os que documentam os ensinamentos através de laptops, por exemplo.

“Objetos atraentes chamam nossa atenção, e é preciso energia mental para conseguir focar em alguma outra coisa com eles por perto. Coloque um bolo de chocolate na mesa ao lado de uma pessoa de dieta ou então um maço de cigarros próximo a um fumante e perceba como a atenção dessas pessoas se volta para aquilo que elas mais querem”, explicou o professor em entrevista ao portal The Atlantic.

De volta ao estudo publicado, Adrian Ward se diz preocupado com o futuro do ser humano ao lado de seus novos melhores amigos. “Estamos no 10º aniversário do iPhone, a internet tem apenas 25 anos, e não conseguimos mais viver sem nenhum deles. Seus lados positivos são tão grandes que não ainda não estamos dando atenção aos aspectos negativos”, encerrou o especialista.