Do começo, por favor

Os smartphones estão se tornando o principal dispositivo para consumo de conteúdo nos Estados Unidos. Eles são responsáveis pelo crescimento astronômico no tráfego web no país, deixando para trás outros equipamentos como tablets e PCs. Para se ter uma ideia, segundo a Adobe Analytics, desde janeiro de 2015 houve um aumento de 68% no tráfego da web nos smartphones entre os americanos, ao passo que tablets e computadores assistiram seus indicadores diminuírem.

Para o levantamento, foram monitoradas mais de 150 bilhões de visitas a 400 sites de grandes empresas e aplicativos no período. Os dados anônimos foram agregados a outras informações de empresas que utilizam a plataforma Adobe Experience Cloud. Mas o resultado não é apenas no mercado dos EUA. 

O mercado de smartphones no Brasil

Em terras tupiniquins, o cenário não é muito diferente. Por aqui, a preferência por celulares para acesso à internet impera. De acordo com a pesquisa TIC Domicílios 2016, divulgada na semana passada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, no último ano, 9,3 milhões de residências estavam conectadas por meio de dispositivos móveis no período. Para efeito de comparação, esse montante era de 5 milhões em 2012.

Em 2015, o número de adeptos das telinhas já era impressionante: 89% dos internautas do país acessaram a internet por meio de smartphones, enquanto 54% utilizavam desktops, notebooks ou tablets. Hoje, 93% dos usuários de Internet usam o celular para navegar na rede.

Além disso, a pesquisa aponta que a proporção de domicílios com acesso à Internet, mas sem computador, dobrou em dois anos. De 7%, em 2014, o montante foi para 14% em 2016 – o equivalente a 4,4 milhões de domicílios. 

À medida que o acesso móvel cresceu, os acessos via banda larga fixa se mantiveram estáveis pela primeira vez: englobando 23 milhões de domicílios (o mesmo registrado para 2015).

A estabilidade e o crescimento móvel também influenciou um resultado sobre a região Norte do Brasil: o aumento da disponibilidade da internet para as classes D e E, de 16% para 23% dos domicílios, e de 30% para 35% das residências, respectivamente. Ali é onde a banda larga fixa encontra mais dificuldade para alcançar a clientela. Por outro lado, é onde a banda larga móvel ganhou espaço.

Apesar disso, a diferença entre classes ainda é esmagadora: o acesso à Internet está mais presente em domicílios de áreas urbanas (59%) e nas classes A (98%) e B (91%).

E se você se pergunta por que alguns domicílios continuam sem internet, a resposta é simples: a conexão ainda é muito cara (isso é o que afirmam 26% dos entrevistados que não possuem acesso). Nesse sentido, alguns dos entrevistados (18%) optam por compartilhar a conexão com vizinhos. A prática é mais comum em domicílios localizados em áreas rurais (30%) e na região Nordeste (28%).

It's the end of the apps as we know them

E, claro, é impossível falar de smartphones sem citar aplicativos. E, parafraseando R.E.M., esse é o fim dos aplicativos como os conhecemos hoje. Vamos começar pelo princípio: quando se trata de apps próprios de grandes empresas, como Amazon, Facebook, Google, entre outros, eles continuam sendo bastante utilizados por usuários.

Nesse sentido, ainda de acordo com a pesquisa da Adobe, 61% do tráfego referido nos smartphones (ou quando os usuários acabam em uma página de forma não orgânica, mas por outros meios) ocorreram via Google. Outros 16% vieram do Facebook. Outras fontes representaram apenas 23% no total. Ou seja, Google e Facebook estão ganhando bastante com publicidade.

Aliás, essa é a grande aposta para o futuro: publicidade móvel. Visto que os anunciantes alocam seus gastos onde os usuários estão e considerando que anúncio é a espinha dorsal da internet gratuita, é válido ressaltar que veremos muitas empresas investindo em publicidade com foco em mobilidade.

Um dos motivos, na opinião de Omer Kaplan, CMO da ironSource, é o fato de que o ambiente dentro de aplicativos é cada vez mais controlado por grandes empresas como Apple e Google, o que significa que o ecossistema em si está livre de propagandas enviesadas, com conteúdo pró-terroristas ou antissemita, por exemplo. E isso é uma boa para as marcas (que obviamente não querem ser associadas a esse tipo de conteúdo).

“Além do fato de que o tempo gasto em aplicativos continua a crescer, os apps também oferecem às marcas um ambiente naturalmente seguro para seus anúncios. Já vimos um aumento acentuado de marcas em aplicativos nos últimos meses, e com a controvérsia atual e foco na segurança da marca com a publicidade gráfica tradicional, esperamos que essa tendência se intensifique à medida que empresas procuram um espaço seguro na publicidade digital”, disse ele ao Future of Everything.

Apesar disso, é válido ressaltar que o uso de aplicações variadas está perdendo espaço nos Estados Unidos. Os usuários do país abriram 22% menos aplicações nos smartphones e 50% menos em tablets, em comparação com o início de 2016, ainda de acordo com a pesquisa da Adobe.

Não é uma ferramenta

Basicamente, a ideia de um aplicativo como sendo uma ferramenta de única finalidade vai morrer, de acordo com Paul Adams, vice-presidente de produtos da Intercom. E é aí que o jogo pode mudar. Para ele, à medida que consumimos mais conteúdo móvel, mais os aplicativos se transformarão em ferramentas de publicação, com recursos de notificações e outras ações. “Isso mudará o que desenhamos e mudará nossa estratégia de produto”, aponta ele.

“A ideia de ter uma tela cheia de ícones representando aplicativos independentes, que precisam ser abertos para experimentá-los, está fazendo menos e menos sentido. A ideia de que esses aplicativos podem rodar no background, impulsionando conteúdo para uma experiência central, está fazendo mais e mais sentido. Essa experiência central pode ser algo que parece um centro de notificação, ou semelhante ao Google Now, ou algo completamente novo”, observa. O executivo propõe como uma das possibilidades o surgimento de “cartões” que aparecerão em forma de notificação, mas com interação – os aplicativos? Eles ainda existirão, mas não precisarão ser abertos sempre. 

Para Supratim Dam, especialista em marketing da Ready4SApps, os aplicativos sequer precisarão ser baixados por usuários. “Não está longe o dia em que usuários poderão transmitir a funcionalidade dos apps sem ter de baixá-los antes. Nos próximos 15-20 anos, os aplicativos não continuarão a ser uma extensão do canal de marketing, mas estarão no coração do sucesso para todos os negócios. O foco mudará para geolocalização - resolvendo um problema local e tendo impacto global”.

Para ele, “a próxima geração de aplicativos móveis será construída em torno de conectividade, IoT e objetos inteligentes”, afirmou ao Future of Everything. As palavras-chave para o sucesso serão: atenção, user experience e gerenciamento de desempenho.

Outros dados

Agora, deixamos você com um resumo de outros números bacanudos que encontramos durante a nossa pesquisa sobre o mercado móvel:

750 mil

É o número de empregos diretamente suportados pelo ecossistema móvel em 2015 na América Latina. Além disso, outros 1,1 milhão de empregos indiretos foram gerados pelo sistema no mesmo ano.

6,1 bilhão

É o total de usuários de smartphones ativos no mundo até 2020, de acordo com o levantamento realizado pela Ericsson. Comparado com os 2,6 bilhões registrados em 2014, o salto vai ser bem grande.

55%

O tanto que o tráfego em vídeo crescerá ano a ano até 2020, de acordo com a mesma pesquisa. Os principais impulsionadores desse tópico são serviços de streaming e o crescimento de conteúdo online em vídeo.

US$ 6,3 trilhões

O valor total da economia dos aplicativos até 2021 (atualmente o valor é de cerca de US$ 1,3 trilhão), de acordo com o levantamento realizado pela  App Annie, empresa especializada em análise de dados de aplicativos e de mercado.

90%

A fatia do mercado de aplicativos impulsionada pelo ecommerce em 2016, também segundo a App Annie.