O ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, bem que avisou Mark Zuckerberg de que as fake news não eram brincadeira - eram uma ameaça (e das grandes). O negócio era tão importante e poderia causar tanto estrago que Obama foi pessoalmente falar com o CEO do Facebook para alertá-lo.

De acordo com informações do Washington Post, Obama teria conversado com Zuckerberg e advertido de que se a rede social e o governo não trabalhassem juntos para enfrentar as notícias falsas, as coisas poderiam sair do controle.

A conversa, ainda de acordo com a publicação, teria ocorrido durante um encontro de lideranças globais em Peru, pouco mais de uma semana antes de Zuck descartar a ideia de que as fake news realmente poderiam ter alguma influência sobre as eleições presidenciais de 2016 - e dois meses antes de Donald Trump entrar na jogada.

Sim, Zuckerberg teria dito que tinha conhecimento sobre a existência das falsas notícias, mas que o caso era algo pontual, e também não seria fácil de ser endereçado, na opinião do executivo.

Obama, na ocasião, teria afirmado também que esperava que a conversa servisse como um aviso para que mais fosse feito, de acordo com o Washington Post, que citou fontes familiarizadas com o assunto. As fontes também confirmaram que, à luz da vitória eleitoral de Trump, os assessores de Obama "desejavam ter feito mais".

Só para lembrar os esquecidos

Em novembro passado, Zuckerberg foi confrontado sobre o papel da empresa com relação às falsas notícias que estariam sendo amplamente divulgadas na plataforma da empresa. O executivo negou qualquer possibilidade de que as fake news teriam poder de influenciar alguma coisa (na verdade, ele disse que isso era “loucura”) e que “eleitores tomam decisões baseadas em sua experiência de vida”.

De fato, para ele, as fake news representavam "uma quantidade muito pequena de [todo] conteúdo [da rede]". Apesar de ter afirmado também que se preocupava com o modo como as informações disseminadas por meio do Facebook poderiam afetar a democracia, e que ele desejava que a rede social exercesse um “bom impacto no mundo”, os resultados da conversa com Obama não foram muito satisfatórios.

Agravantes

Apesar da relutância anterior, o Facebook identificou uma campanha russa de desinformação ativa na rede em junho de 2016. A empresa relatou o caso ao FBI, mas eles ainda lutam para trabalhar de forma efetiva e endereçar a situação - foram identificados mais de 3 mil anúncios com temáticas políticas comprados por agentes russos.

Publicidade política, agora, é rastreada na plataforma e alguns posts são verificados para que agentes disseminadores de notícias falsas não recebam por isso e, claro, para evitar que a desinformação ganhe força na rede.

As decisões para conter a enorme onda de fake news (e sua influência nas redes, especialmente Facebook) podem ter vindo um pouco tarde, é verdade.

No fim das contas, isso não muda o fato de que a eleição de Trump foi um sucesso e de que as fake news tomaram proporções dramáticas.

Culpados?

Em sua defesa, depois que a notícia foi publicada no Washington Post, o Facebook liberou um comunicado afirmando que a conversa com Obama foi, de fato, sobre "desinformação e falsas notícias", mas "não incluiu nenhuma referência a possíveis interferências estrangeiras ou sugestões sobre enfrentar a ameaça".

Para alguns críticos, houve uma “falha sistemática de responsabilidade” por parte do Facebook, como afirmou Zeynep Tufekci, professor associado da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, especialista no impacto de empresas de redes sociais na sociedade e nos governos.

Para ele, houve até mesmo um pouco de ingenuidade. “Está enraizado no seu excesso de confiança, de que eles sabem melhor, na sua ingenuidade sobre o funcionamento do mundo, no seu grande esforço de evitar a supervisão, e o modelo de negócios deles que consiste em poucos funcionários ao ponto que não há pessoas para tomar conta da casa", completou ao Washington Post.