12h15, San Jose, Califórnia. Depois de uma keynote para lá de longa e densa sobre placas de vídeo, servidores, carros autônomos e inteligência artificial a minha cabeça já estava explodindo. Ao fim da apresentação, a agenda de imprensa previa um almoço seguido de Q&A com executivos da marca para comentários sobre produtos e soluções apresentados. Entre um salão e outro do San Jose Convention Center, todos os jornalistas comentavam o nome da NVIDIA, mas ninguém falava dos lançamentos. O assunto e o tom eram difernetes.

Com Jensen Huang, CEO da marca, no palco, saiu a notícia: NVIDIA suspende testes com carros autônomos após acidente fatal com protótipo da Uber. Dava para ver no rosto dos jornalistas a surpresa. O motivo é que, apesar da fatalidade ter acontecido com um carro da Uber, a Nvidia é parceira de desenvolvimento da ride hailing. E havia acabado de comentar sobre o chip Xavier e um ecossistema que vai ser utilizado por mais de 370 companhias que pesquisam a área. A própria NVIDIA tinha seus carros sem motoristas rodando por aí.

Jensen HuangHuang apresentava sua nova GPU quando saiu a "bomba"

Imagina só: sua companhia organiza um evento para milhares de desenvolvedores e parceiros, convida a imprensa de todo o mundo, faz alguns dos anúncios mais importantes do ano e aí, cai uma bomba dessas no meio da keynote. As ações da companhia caíram 7,8%, ninguém ia publicar mais nada sobre a marca sem mencionar o acidente.

Invasão do CEO

Voltando para o centro de convenções, estamos na fila para pegar um burrito (eu disse almoço?), a agenda está totalmente atrasada, os executivos tomam seus lugares na frente do salão. Aí entra Jensen Huang com sua já tradicional jaqueta, pega um microfone, pede desculpas por atrapalhar o almoço de todo mundo e dispara: "Vou ficar feliz de responder suas perguntas controversas. Alguém aí quer fazer uma pergunta cabeluda?".

"Vou ficar feliz em responder suas perguntas controversas"

Era toda a chance que um CEO precisava para gerir uma crise ao vivaço. Obviamente, a primeira pergunta foi sobre o assunto. Huang não perdeu a chance se controlar a história, confirmou que a empresa suspendeu seus testes com carros autônomos em ambiente real e apontou para um foco em simulação VR.

Mais importante que isso, ele humanizou a situação com essa declaração: "temos extremo cuidado para testar carros autônomos. A primeira preocupação é a segurança, pois nossos engenheiros estão nesses veículos. Precisamos utilizar essa oportunidade para aprender com os dados, dar a chance da Uber entender e explicar o que aconteceu. A melhor forma de lidar com esse tópico não é desencorajar [a tecnologia], mais elucidar o tema. A NVIDIA não sabe o que aconteceu, mas é claro que os engenheiros da Uber estão devastados".

Com uma resposta, o executivo apresentou um "outro lado" forte o suficiente para desarmar a pergunta dois. E foi o que aconteceu, a resposta dele sobre a percepção que a tecnologia autônoma terá após o acidente foi reforçar o quando a tecnologia de self-driving é necessária.

"Desenvolvemos essa tecnologia pois acreditamos que ela vai salvar vidas. Essencialmente, estamos falando de um datacenter sobre rodas, ninguém nunca resolveu um problema computacional dessa escala".

Presenciar a postura de um CEO encarando uma bronca desse tipo e "matando a questão no peito" foi um dos destaques do dia. Em tempos de CEOs demorando quase uma semana para mandar um "foi mal pelo vacilo" (cof, cof), a atitude de Huang foi duplamente acertada. Primeiro, do ponto de vista do "manual de gestão de crise", o cara desarmou a bomba. Depois, foi além e lembrou da dimensão humana do problema. Já fez valer a viagem e almoço.

* O repórter viajou a San Jose, EUA, a convite da NVIDIA.

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