A sexta passada foi bem 13 para o Telegram. Uma corte da Rússia baniu o aplicativo em seu país natal. O motivo para a bronca? A plataforma se recusou a oferecer um backdoor para que o Departamento de Segurança pudesse monitorar as mensagens trocadas no app. A recusa não veio sem contexto. É que a privacidade dos usuários sempre foi parte importante no discurso do Telegram na hora de se diferenciar da concorrência, principalmente por conta de sua ferramenta de chats secretos. Estamos falando de você mesmo, zap.

Falando em Rússia: tudo isso aconteceu na sexta, um dia antes de EUA, França e Inglaterra lançarem um ataque na Síria, em resposta ao suposto uso de armas químicas pelo governo do país contra a população. A Rússia, que é aliada das autoridades sírias, afirmou que o trio deveria esperar algum tipo de retaliação. Ameaçou até banir produtos importados dos EUA, mas apertou o botão de pause nesse plano ontem.

Mais rápido que fazer um estrogonofe

Se você imaginou uma batalha judicial longa, com acusação e defesa trocando recursos e muitos pedidos de “ordem no tribunal”, errou feio. A seção que determinou a queda do Telegram teve 18 minutos. O time de advogados do mensageiro não compareceu à audiência, nem mandou telegrama (tum dum tss). A decisão foi um protesto contra a celeridade do processo antes do julgamento final. Que, realmente, foi confirmada. A decisão de banir o comunicador foi quase tão rápida quanto um corredor russo dopado (se você assistiu Ícaro, vai entender a referência. Se não, assista Ícaro e entenda a referência).

A coisa tá russa

As preocupações em relação ao Telegram (e seu sistema de criptografia de ponta a ponta) não é recente. Lembramos que o Kremlin instituiu uma lei antiterrorismo em 2016, que força provedores de tecnologia a manter uma “saída de serviço”, caso o governo queira investigar ameaças na internet.

A muralha russa do aplicativo protege pessoas comuns, mas também faz dele um dos favoritos de grupos extremistas (como o Estado Islâmico). Essa baita matéria do The Outline também revela que a plataforma é usada para distribuição de conteúdo pirata. Lembra deles? Filmes e séries, antes da Netflix e músicas antes do Spotify.

Campeão russo fora de campo

A notícia colocou toda a equipe do governo russo numa bela saia justa, porque o mensageiro é utilizado até mesmo por Vladimir Putin. Aliás, quando foi convidado a comentar sobre a decisão do bloqueio, o porta-voz do Kremlin, Dmitri S. Peskov, tinha acabado de anunciar uma “conference call” via Telegram. No maior clima revival, o jeito foi o governo recorrer ao quase-morto-pura-nostalgia ICQ, que boa parte dos leitores desta news sequer já ouviu falar.

Tem mais. O app é o nono mais usado no mundo, com 200 milhões de usuários ativos mensais. Destes, 9,5 milhões vêm do país sede da próxima Copa. A plataforma é vista por boa parte da população russa como um símbolo de prestígio local. “O Telegram é uma conquista nacional que a Rússia deveria ter orgulho” é um exemplo dos comentários feitos por moradores insatisfeitos com a decisão. Afinal, estamos falando de uma empresa tech que nasceu no gigante gelado e foi capaz de peitar muita gente grande do Vale do Silício - incluindo o Facebook, dono do WhatsApp. E, veja bem, mexer com um campeão nacional sempre deixa o assunto bem mais complicado.

Captou a mensagem?

Pavel Durov, fundador e CEO do Telegram, usou o seu perfil no Twitter para comentar o bloqueio. Em dois tuítes, ele já deixou claro que a empresa mantém o seu posicionamento de não entregar os dados pedidos pelo Governo: “Privacy is not for sale, and human rights should not be compromised out of fear or greed”.

Se tomarmos como base casos semelhantes ocorridos ao redor do mundo (aqui mesmo, inclusive), a tendência é a de que o governo ceda à pressão pública e acabe desbloqueando o serviço. Outro ponto que contribuiu para que o próprio Telegram encare esse momento com mais tranquilidade é que, apesar de nascido na Rússia, desde 2017 o escritório principal da companhia está localizado em Dubai, nos Emirados Árabes.

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