Se a vida imita a arte, a realidade dos principais canais infantis de TV à cabo anda  bem parecida com a de um filme de suspense. Isso porque, a cada ano que passa, mais telespectadores mirins deixam de acompanhar a grade de programação para se dedicarem às duas paixões: YouTube & Netflix. Com seu conteúdo disponível a qualquer hora do dia e da semana, as plataformas fazem a alegria das crianças — e dos pais também, sejamos honestos (Shrek, melhor filme).

Capitão Cabo-vernaaaaaaaa!

De 2010 a 2017, a audiência registrada por Nickelodeon, Disney Channel e Cartoon Network caiu mais de 30%, de acordo com uma pesquisa divulgada pela Nielsen. E a queda continua livre: do ano passado para cá, houve uma perda de 20% no número de TVs ligadas nesses canais.

A pesquisa foi realizada nos EUA, mas não é difícil imaginar que esses números possam ser refletidos globalmente. Afinal,  Netflix e YouTube estão aí para (quase) todo mundo. No Brasil, por exemplo, o número de buscas por esses canais no Google está em linha decrescente desde o final de 2013. Um indicativo de que, pelo menos, o interesse sobre eles também está diminuindo por aqui.

O laboratório de Hastings

De acordo com o estudo da Nielsen, o YouTube é o local preferido do público infantil para assistir a desenhos. Mas não por muito tempo, pelo menos, se depender da Netflix. A companhia de streaming vê o mercado infantil como um bom filão desde 2011, quando conseguiu os direitos de transmissão de “Bob Esponja”, da Nickelodeon. De lá para cá, a plataforma vem investindo pesado tanto para trazer mais produções ao seu catálogo (é você mesma, Masha e o Urso), como em criações próprias, os famosos Originals.

Para conseguir a expertise necessária para dominar o parquinho, o CEO Reed Hasting e sua patota chamaram reforço: contrataram a ex-DreamWorks Melissa Cobb como VP da divisão Kids & Family. Além disso, fizeram uma parceria com os escritores Scott Thomas e Jed Elinoff, criadores do desenho da vez, 9th Grade Ninjas. A missão da dupla, agora, é produzir conteúdo para ser exibido com o selinho da Netflix no canto.

Tanta preocupação é porque a empresa não pode depender exclusivamente dos filmes e séries criados por outros estúdios. A lição veio, depois que a Disney anunciou que vai retirar seus filmes e séries da plataforma de streaming porque vai criar seu próprio canal de transmissão online. Então, vai que Nickelodeon ou Cartoon decidem seguir os passos do Mickey? Pode dar adeus ao Bob Esponja, Hastings.

Imagine aqui a risada do Mutley

A turma do cabo não soube reconhecer o perigo que a Netflix representava. Lá no começo, fechar parceria com a empresa parecia um negócio vantajoso, já que era um jeito de espalhar os desenhos a nível mundial. Assim, os canais conseguiriam faturar mais com a venda produtos licenciados - que era o que dava dinheiro mesmo. Só que, desde 2012, esse mercado anda estacionado, com um faturamento que não passa do USD 1,2 bilhão nos EUA. Claro que não dá pra dizer que o retorno seja uma miséria, mas a verdade é que, juntando esse número estagnado com a queda nas views, os canais estão feito Dick Vigarista, na Corrida Maluca. Lá atrás. 

Streamaniacs

Como ninguém quer chegar por último, as marcas começaram a se movimentar. A Nickelodeon lançou um serviço transmissão online chamado Noggin (que ainda não funciona por aqui), voltado para crianças a partir de três anos. Já o Cartoon fez o Dexter e lançou um plano mais elaborado: liberando desenhos em seu aplicativo, antes de exibí-los na TV. Agora é ver se a tática dá certo ou se o maior temor dessa turma —  de que seu público ficou adulto demais — vai se confirmar.

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