Como comentamos na sexta, a Xiaomi começou a preencher a papelada para chegar chegando no mundo das ações. E parece ter feito isso em seu melhor momento nos últimos anos. Mas nem sempre esse cenário cor-de-rosa esteve presente na sua rotina. Durante seus oito anos de existência, a rainha dos smartphones na China precisou dar diversos pulos para não deixar sua coroa cair. E essa é uma história que essa digníssima newsletter achou que valia a pena ser melhor contada.

Take it easy, gafanhoto

O ano é 2014. Com quatro anos de vida, a Xiaomi era a startup-sensação do mercado. Seu modelo de negócio, que combinava vendas exclusivamente on-line e aparelhos muito mais baratos em comparação com modelos similares da concorrência, conseguiu levantar USD 1 bilhão em uma rodada de investimentos e um valuation de USD 45 bi. Mas o que ninguém imaginava essa bonança toda acabaria se tornando um belo tiro no pé.  E isso por três motivos:

  • Empolgada, a empresa acabou apressando seu processo de expansão para outros países — tipo por aqui —, o que resultou em dinheiro perdido e fechamentos de escritórios;

  • Toda a atenção que a empresa atraiu também despertou o interesse dos rivais, que acabaram com sua forma de venda e produção de aparelhos, os pilares que garantiam seu sucesso;

  • Ao mesmo tempo, a China encarava uma explosão absurda de venda de aparelhos. E, com um setor de distribuição que nem chegava perto de atender a demanda crescente, a empresa começou a atrasar bastante suas entregas.

Todos esses perrengues fizeram a empresa cair do terceiro para o quinto lugar no ranking chinês de fabricantes de celular, em meio a um clima de frustração dos clientes e sem mais nenhum fator diferente dos seus pares.

The Chinese Connection

Se tem alguém que ajudou a empresa a sacudir a poeira e dar a volta por cima,  essa pessoa foi Lei Jun, o CEO da Xiaomi. Vendo a área de supply chain toda embananada, o chefão convidou o responsável a se retirar e assumiu a área, negociando pessoalmente com fornecedores no nível da Foxconn e estabilizando a produção. Conhecido por seu estilo de gerenciamento à la Antonio Ermínio de Moraes, a ponto de ter feito questão de escolher os vasos sanitários que seriam usados no banheiro masculino da nova sede, Lei Jun comandou no detalhe o plano de retomada da empresa.

O primeiro passo foi focar sua expansão internacional na Índia, que passava pelo mesmo boom de crescimento. A estratégia de vendas não mudou: aparelhos com boa configuração a uma margem de lucro mínima (USD 2 por telefone; a Samsung, em comparação, leva USD 19; a Apple, USD 250). A outra tática implantada por Jun foi o licenciamento da marca Xiaomi para produtos que vão de drones a patinetes. E deu certo: atualmente, a empresa divide com a coreana o #1 de topseller. E sua linha de negócios paralelos é comercializada em 70 países e responde por 20% das vendas da companhia.

IPO Man

Lei Jun & Cia não anunciaram quanto eles pretendem captar com o IPO, mas já deram a letra do que pretendem fazer com a grana, que será dividida em 3 blocos de 30%. Os valores serão realocados na expansão internacional da marca, pesquisa e desenvolvimento de novas soluções e no fomento do ecossistema de produtos inteligentes e IoT da companhia. E os 10% restantes seriam usados para alimentar o capital de giro da marca.

Apesar da Xiaomi ter feito a brasileira e não desistir nunca, já dá pra enxergar alguns problemas que ela terá que lidar. Como a desaceleração de vendas de smartphones no mercado chinês — que ainda representa uma boa parcela do número de aparelhos vendidos — e o desafio de uma possível entrada no mercado americano durante a era Trump. Agora é conferir se o script digno de novela mexicana valeu como lição.

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