Savage questions

Houve uma época, não muito tempo atrás, em que o relógio batia 16h e a redação desta newsletter soltava o lápis. Não era para esperar pelos próximos 20 minutos nem para o café da tarde, mas para mergulhar no HQ Trivia. No game para celular, jogadores competem online, em tempo real, por um prêmio bem melhor do que vidas virtuais: dinheiro. Basta não errar nenhuma pergunta e responder cada questão de múltipla escolha em 10 segundos para seguir na disputa e ganhar recompensas que vão de USD 2 mil a USD 300 mil.


Lançado em 2017 pelos criadores do Vine, o game de perguntas e respostas à la Show do Milhão para millennials se tornou um belo de um hit. Em cinco meses, acumulava 1 milhão de pessoas assistindo às suas transmissões. Em março, batia 2 milhões e recebia a chancela de um belo investimento de USD 15 milhões, em uma rodada liderada pelo Founders Fund, o fundo de Peter Thiel. Alcançou, então, um valuation de USD 100 milhões. Sua empresa-mãe, Intermedia Labs, se tornou exemplo para o setor de mídia, com marcas do naipe de Nike e NBC pagando para aparecer ao longo do game. Durante os dois primeiros meses deste ano, o HQ Trivia figurava no top 10 dos jogos mais baixados para iPhone. Daí alguma coisa aconteceu. Hoje, está entre os 250 e 500 apps com mais downloads. O número de pessoas assistindo às transmissões diárias ainda é grande, mas caiu dos milhões para algo entre 400 e 500 mil. E o mercado começa a achar que a maldição da Rovio, a criadora do Angry Birds, pode ter sido transferida para a Intermedia. É que não dá para uma empresa viver de um hit só. 

Qumero Numero Uno

Há algumas teorias para a queda no número de jogadores. A mais popular é a de que os prêmios, via de regra, não são lá dos mais atraentes. Acontece que, exceto em rodadas patrocinadas, você disputa com outras milhares de pessoas e, caso ganhe junto com 120 delas, o valor é dividido — o que faz com que seja difícil você tirar mais do que USD 10 do game. Durante um tempo, por conta de toda a novidade do HQ essa bonificação simplona não afetou o FoMO. Mas aí o tempo passou, e muita gente começou a se perguntar a razão de ficar tentando acertar perguntas em um celular para receber uns trocados.

Tudo pela audiência

A principal fonte de receita do HQ são os takeovers pagos por empresa. Neles, uma marca pode bancar um quiz sobre um assunto de seu interesse — como a Disney que, num domingo desses, patrocinou um HQ temático sobre seus filmes. Ou então uma celebridade pode aparecer no meio da transmissão para falar sobre o filme que está lançando ou a companhia que a patrocina. Essa “invasão” do programa, aliás, se tornou um jeito de tentar aumentar a audiência e nomes famosos passaram a ser convidados pela companhia para estrelar no app. Sábado, por exemplo, Mark Cuban ajudou a apresentar o game e deu até alguns conselhos de negócio. A questão é que nem mesmo o investidor-tubarão foi capaz de subir a audiência para além dos 800 mil. Essa é a quantidade de pessoas que, atualmente, o HQ registra num dia espetacular. Como compara o Recode, o número é o mesmo de alguns canais por assinatura, como o Disney Channel. A diferença é que a emissora fica com esses 800 mil por cerca de três horas, enquanto a disputa do HQ dura alguns minutos.


Um dos próprios founders, Rus Yusupov, admitiu o problema. Em seu Twitter, mandou: “games são um negócio de hit e não crescem exponencialmente para sempre”. O plano para salvar o modelo do HQ agora é criar mais jogos, em formatos diferentes. O próximo lançamento será uma espécie de Roda da Fortuna. Mas, muito mais do que enfrentar as dores de crescimento, a Intermedia vai precisar lavar uma roupa suja para ver seus novos projetos funcionarem.

A alternativa correta é...

Ao mesmo tempo que a audiência do game começou a cair, os fundadores passaram a ter desentendimentos frequentes. E o board precisou escolher um lado. Foi daí que surgiu a ideia de substituir Rus Yusupov por Colin Kroll. Isso porque Yusupov era visto como o “cara do conteúdo”: queria transformar o HQ Trivia em uma megaprodução, com prêmios milionários, celebridades convidadas como apresentadores, efeitos especiais e por aí vai. Para ele ficou o cargo de chief creative officer do HQ. Já Kroll era visto pelo board como o “cara técnico” que, além de não compartilhar a empolgação do colega, achava melhor investir tempo e dinheiro em novos produtos. Some a isso a necessidade de que a empresa entregasse uma solução para a queda de audiência o mais rápido possível e… Em setembro, entre razões e emoções, a saída do board foi apostar em Kroll. E esperar que ele fizesse a escolha valer a pena.

Down to the nitty gritty

O fato é que, além de deixar claras as visões diferentes dos fundadores da companhia, o caso gerou alguma controvérsia. O novo CEO já assumiu o cargo com uma acusação de assédio moral no RH da empresa. E um histórico não muito agradável: ainda em seus anos no Vine, Kroll foi demitido após a aquisição do serviço pelo Twitter. Segundo várias funcionárias, seu comportamento fazia parte do time se sentir pouco confortável. Nenhum tipo de investida sexual foi reportada, no entanto. Em seu perfil na rede social, o atual CEO do HQ Trivia chegou a pedir desculpas por qualquer pessoa que tenha se sentido não reconhecida ou incomodada.

A roda da fortuna já está girando. E a Intermedia Labs vai precisar de sorte para encontrar a palavra “winner” no final do jogo.

Q12: Como a dona do HQ Trivia pode lançar mais um hit? via The Brief