Uma distopia chamada internet

Quando olha para sua criação, Tim Berners-Lee não gosta do que vê. O homem responsável pela ferramenta mais influente das últimas décadas assiste, consternado, a uma onda de notícias falsas, intolerância e discursos de ódio tomarem a world wide web. Mas, não vai deixar a questão por isso mesmo. Está determinado a defender os direitos e liberdades dos usuários da rede. Durante a palestra de abertura do Web Summit, em Lisboa, o cientista da computação e professor do MIT revelou como pretende consertar seu brinquedo. A solução, ao que parece, é um grande acordo, com governos, empresas, com tudo.

Parem a web, eu vou descer

O “Contrato para a Web”, como o projeto está sendo chamado, será publicado apenas em maio de 2019 e já tem mais de 50 organizações entre seus primeiros signatários. A versão prévia do documento está circulando pela rede (duh) e, na real, diz muito sobre o ponto que chegamos. E não estamos falando dos memes, infelizmente. “A humanidade conectada pela tecnologia na rede está funcionando de uma forma distópica. Nós temos abusos online, preconceito, polarização, notícias falsas. De várias formas [a internet] está quebrada. Esse contrato faz da internet algo que serve a humanidade, a ciência, o conhecimento e a democracia”, resume Berners-Lee.

Cada um no seu http://

O ‘Contrato’ divide a responsabilidade de uma web mais paz & amor para três entidades. O governo entra em primeiro lugar na lista,  com o objetivo de assegurar que toda a população tenha o direito de se conectar e que a internet estará acessível a qualquer momento do dia, com a garantia de que a privacidade será respeitada. As empresas foram as próximas a entrar no baile. De acordo com o documento, elas terão o compromisso de proporcionar uma conexão de internet acessível, independente da faixa salarial dos seus consumidores, além de respeitar os dados pessoais de seus clientes e usar parte da receita gerada no desenvolvimento de tecnologias que tragam benefícios à humanidade.

A última parte ficou por conta dos cidadãos. Seguindo os princípios apresentados no PDF, caberia à turma gente como a gente produzir e colaborar com conteúdos relevantes para a web, além de fazer a nossa parte para que azinternet seja um lugar em que as pessoas se sintam seguras. Também entra na conta das pessoas físicas o monitoramento de empresas e instituições para garantir que a internet seja um recurso que todos possam utilizar. Ou seja, botar ordem no parquinho.

 

Escreveu, não leu...

A página da iniciativa mal carregou e o assunto já está gerando controvérsia — como tudo na boa e velha WWW. Isso porque Facebook e Google estão entre as 50 empresas que firmaram um compromisso de participar do movimento. Assim, só para recapitular, a empresa de Mark Zuckerberg ainda enfrenta uma crise envolvendo o vazamento de suas base de dados e a influência externa nas eleições norte-americanas. E, do outro lado, a companhia de Larry Page e Sergey Brin está em conversas com o governo chinês para criar uma ferramenta de busca com filtro de censura ativado (isso sem falar no projeto em parceria com o Pentágono). Então ficam as questões: que espécie de autoridade essa parada vai ter? E qual o poder tem um documento como esse contra empresas que detêm um verdadeiro monopólio das ferramentas que usamos todos os dias?

 

Can’t fix humans

O pai da criança internet admite que não adianta só assinar um papel para que as coisas melhorem no mundo digital. Mesmo o sucesso da tal “Carta Magna” das interwebs não vai ser lá muito fácil de se mensurar. Até porque não é como se a internet fosse uma entidade que age por conta própria. E, como a gente já comentou, talvez só os governos — e uma baita vontade política — tenham o poder de botar Google, Facebook e Amazon na linha. Parece meio ingênuo, mas o ativista acredita que a iniciativa vai trazer o tema para as reuniões de governantes e líderes de grandes empresas. E, mais importante, dar ao público um documento com o qual cobrar os poderosos.

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