Olar, mobile payment

Esta notícia vai começar com uma informação óbvia: a Amazon parece que quer dominar o mundo. Depois de entrar no varejo físico com lojas sem caixa, criar um serviço de saúde e vender auto-falantes, Jeff Bezos tem como sua mais nova empreitada fazer uma entrada triunfal (paywall) no mercado de mobile payment. Nos últimos meses, a gigante do e-commerce vem trabalhando para convencer comerciantes a aceitarem a carteira digital do Amazon Pay. A princípio, a investida será apenas em negócios que não competem diretamente com a Amazon, como postos de gasolina e restaurantes. Vale o comentário: tarefa difícil é encontrar um não-rival. A ideia, porém, é tornar o serviço popular o suficiente para que mesmo concorrentes se vejam forçados a usar o sistema.

 

Os dois A’s de FAANG

Em outras palavras, a empresa de Seattle achou um novo campo de batalha para duelar com a Apple. Lançado em 2014, o Apple Pay registrava 127 milhões de usuários globais, no final do ano passado. Em 2016, só para você sentir o clima da coisa, eram 62 milhões de usuários - ou menos da metade. Por outro lado, existem cerca de 795 milhões de iPhones ativos pelo planeta e apenas 11% possuem o serviço de pagamentos ativado. No mercado americano, o número é ainda menor: 5%. Uma possível explicação para esses indicadores é a de que as tecnologias contactless e de mobile payments são muito mais usadas na Europa e nos países nórdicos do que na Terra da Liberdade. Fora isso, os dígitos acima usam como base todos os smartphones da Apple ativos - incluindo aí as versões que não rodam o Apple Pay. Se tem um indicador, no entanto, que pode ser considerado sucesso inquestionável para o negócio de Cupertino é o de bancos. Ano passado, o número de instituições financeiras que aceitam o serviço chegou a 2,7 mil, uma alta de 41% ante ano passado.

 

Retail haters

Para chegar a esses números, a Apple teve de rebolar. Na semana de lançamento do Pay nos EUA, a empresa recebeu um baita shade de redes grandes como a CVS e Rite Aid. Elas bloquearam o acesso ao sistema da Maçã, num contra-ataque feroz à carteira digital. Acontece que o serviço da Apple não oferece benefícios o suficiente para que essas empresas, de fato, queiram adotar a tecnologia. E vem com um problema:a funcionalidade ainda usa cartões de crédito, o que custa aos varejistas algo entre 1% e 5% em cada transação. No final das contas, quatro anos se passaram, mais gente começou a usar o Apple Pay e as redes tiveram de se render. Em outubro agora, a CVS e o 7-Eleven passaram a aceitar a modalidade de pagamento. Outras, porém, seguem na condição de haters, como Walmart e Target. Daí vem a pergunta que não quer calar: se rolou esse rage todo com uma fabricante de celulares, imagina o que vai acontecer com uma varejista online que concorre diretamente com essas lojas?

 

Amazonians

Para superar o pé atrás já previsível, a companhia de Seattle tem como trunfo o fato de já saber que seu serviço teria adesão. Isso porque, de acordo com um relatório da Bernstein Research (paywall), cerca de 14% das pessoas que fizeram compras online utilizaram o Amazon Pay para pagar compras realizadas em parceiros que já aceitam o serviço. Por “parceiros”, entenda: locais que não têm relação alguma com os “n” negócios de Mr. Bezos. Um baita indicador de tem uma galera que só precisa de uma chance para fazer do AP sua solução #1 para pagar as contas on e offline da vida.

 

I wanna love you and treat you right

Além disso, o plano da amazona para convencer as marcas a adotarem sua carteira digital como pagamento é atacar no bom e velho custo-benefício. A equipe responsável pela expansão do serviço estaria sinalizando aos estabelecimentos a possibilidade de abocanhar uma parcela menor do fee de serviço cobrado em cada transação, uma dor que todo o comerciante sente no bolso e eterno ponto de discórdia com as bandeiras e donas das máquinas de cartão de crédito. E, para amaciar o ego dos lojistas, a mãe da Alexa também organizaria ações de marketing para os comércios que colarem o adesivo de "aceitamos Amazon Pay" na porta de entrada.

 

Everybody loves Asia

Apesar de todo esse esforço, o negócio é que a Amazon não deve esperar um retorno dos bons a curto prazo. Isso porque menos de 1% de todos os americanos usam uma carteira digital para fazer compras. O objetivo inicial parece ser o de garantir que seu modo de pagamento seja uma opção que esteja na cabeça dos usuários quando eles decidirem experimentar essa modalidade. Além de dar um chega pra lá na Maçã, claro. E, enquanto esse mercado não decola no quintal de casa, a empresa  levaria todo o conhecimento adquirido para outros mercados em que o mobile payment estivesse mais em uso. Neste momento, imagine a palavra “Ásia” num letreiro de néon. A dificuldade aqui seria competir com o Ali Pay (ou Ant Financial), do Alibaba, e o WeChat Pay, da Tencent. Guerra de titãs: somos/amamos.

 

Quer pagar como? via The Brief