Warner doesn’t share Friends

Quase todo mundo tem um amigo que, ameaçado por um garfo alheio vindo em direção ao seu prato, cita o mantra do personagem Joey Tribbiani: “Joey doesn’t share food.” E mesmo que você nunca tenha assistido Friends ou faça ideia da cena à que o sujeito em questão se refere, sabe da importância que essa série dos anos 1990 mantém até hoje. Prova disso aconteceu essa semana mesmo. Um boato circulou na internet dizendo que o show seria retirado da Netflix até o final do ano. Simples assim, uma galera começou a maratonar o sexteto de Nova York na esperança de guardar o máximo de referências o possível para citar em situações como esta de dividir comida.

I will be there for your streaming

Produzida pela Warner, a série vive um verdadeiro momento leilão. Com o contrato para transmitir o show prestes a terminar, a Netflix teve de entrar numa batalha de arremates com Hulu e Apple para manter Rachel e Ross exclusivos em seu catálogo. Segundo o NYTimes, a empresa pagou USD 100 milhões para seguir com Friends durante 2019 - um valor três vezes maior do que havia pago nos últimos cinco anos. Em outras palavras, o que a gente quer dizer é isso daqui: um show que acabou há 14 anos conseguiu triplicar seu valor em questão de dias. Mas a calmaria da Flix deve acabar em breve, já que a empresa dos irmãos Warner planeja lançar o seu próprio serviço de streaming já no ano que vem. Pelos termos do acordo, a produtora poderia pegar Friends para si mesma e mais ninguém em 2020.

The one with an explanation on it

Com dez temporadas e uma audiência média de 23 milhões de espectadores por episódio, Friends foi, de longe, um dos maiores sucessos da televisão nos anos 1990.

Mesmo depois do último capítulo ir ao ar, a parada continuou na telinha roubando até horário prime que poderia ser dado aos novos shows. Pesquisar na internet o porquê desse êxito todo é uma tarefa difícil. Tem até estudo psicológico sobre o assunto. Mas, no geral, a explicação gira em torno do mix de personalidades dos personagens e da fase da vida em que se encontram - com a qual todo mundo que está perto dos 30 consegue se identificar. Tem também o fato de o show passar uma sensação positiva a respeito das amizades, mesmo quando tudo vai mal ou quando você tem um peru de Thanksgiving na cabeça. Para dar uma ideia, depois dos ataques do 11 de setembro, a audiência de Friends subiu 17%, porque os espectadores encaravam a série como um comic relief.

Mais difícil do que Ross e Rachel ficarem juntos

Acontece que a Warner está numa sinuca de bico. Afinal, o sitcom é um de seus assets mais valiosos. E ela faz muito dinheiro licenciando os direitos de exibição. Mas, imaginem só, a dona do show retoma a exclusividade do seriado em 2020 e lança seu WarnerFlix. Que pode ser um baita flop. Nesse cenário hipotético, a companhia teria colocado um de seus maiores tesouros numa baita furada. Pior, com menos demanda, a tendência é que o preço de qualquer produto caia. Daí que Friends pode render mais para o grupo de mídia nas mãos de quem pode manter o sitcom vivo. Isso significa: manter a galera ligada no seriado. A segunda opção, que parece a mais razoável, é que a WM mantenha Chandler e sua turma (o show deveria ter esse nome, btw) no seu serviço, mas também no da Netflix. Nesse caso, o time de Reed Hastings teria um desconto de 25%, pagando algo em torno de USD 75 milhões por ano para a exibição do seriado. Parece uma baita negócio, né?

Can I interest you in a sarcastic comment?

Bem, o head de estratégia da Amazon Studios, Matthew Ball, não concorda. O cara até postou essa thread no Twitter para explicar por que a AT&T, dona da Warner, deveria simplesmente mover o seriado para o app da HBO. “Imagine o impacto da aquisição de clientes — do nada, a cobertura da imprensa e os fãs de Friends vão todos para a HBO”. O executivo acredita que a operadora deveria manter o show fora de circulação por alguns meses, represando a demanda e, depois, direcionando todo mundo para as assinaturas de free trial. Dividir os amigos, segundo ele, “destrói o valor da série no serviço de vídeo da Warner. Os clientes deles já têm Netflix”, afirma o cara.

No final, tudo se resume àquela velha história: welcome to the real world. It sucks. You're gonna love it.

Foto: IMDB

Smelly bet: como a Warner pretende manter Friends dando dinheiro via The Brief