Big Data, big trouble

Lisa Magrin é uma professora de matemática de 46 anos que mora em Nova York. E o motivo pelo qual você está conhecendo essa personagem aqui, hoje, é porque ela autorizou o The New York Times a divulgar os dados de localização que seu celular registra durante quatro meses. Acontece que o jornal conseguiu colocar as mãos numa amostra de infos de mais de 1 milhão de smartphones na área da Big Apple. Elas foram coletadas por apps que pedem ao usuário permissão para ter acesso à sua localização e depois vendem esse arsenal todo para outras companhias, que buscam encontrar padrões de comportamento entre usuários para fazer campanhas de marketing, por exemplo. Mas o que a publicação descobriu é um tanto assustador. A precisão das infos a que esses anunciantes têm acesso é absurda. Ao longo dos últimos quatro meses, a latitude e a longitude em que Magrin se localizava neste planeta Terra foi registrada mais de 8,6 mil vezes. Ou seja, a cada 21 minutos.

Cara, cadê o meu dado?

Como tantas pessoas por esse mundo, a professora sabe que tem aplicativos que rastreiam seus movimentos no celular. São plataformas de exercício, de trajetos e de previsão do tempo. O que ela (e tantas pessoas por esse mundo) não sabe é o quão exatos esses registros são. Do tipo: mostravam as idas diárias de Magrin à escola, aos encontros do Vigilantes do Peso e consultas médicas. Ela é um dos milhões de pontinhos que navegam por um mapa e têm suas idas e vindas catalogadas para serem comercializadas. A questão aqui, óbvio, é privacidade. Em alguns casos, segundo o NYT, a localização de pessoas chegou a ser atualizada mais de 14 mil vezes por dia. O jornal conseguiu confirmar 75 empresas como recipientes dessa porrada toda de dados. Para seduzir a clientela, boa parte delas clama ser capaz de rastrear mais de 200 milhões de mobile devices nos Estados Unidos.

Show me the data

O trabalho dessas companhias é vender, usar e / ou analisar dados para anunciantes. Em sua sua lista de clientes estão desde varejistas até fundos de hedge que querem entender o comportamento de clientes. É um mercado ultra-quente, veja bem. Anúncios location-targeted movimentaram cerca de USD 21 bilhões, somente este ano. A IBM, por exemplo, ingressou nesse mundo depois de comprar os aplicativos do Weather Channel. O Foursquare passou por uma baita reestruturação para se tornar um negócio de marketing de localização. Entre os investidores que apostam no setor, está o banco Goldman Sachs e o fundador do PayPal, Peter Thiel. Como o NYTimes bem colocou: a localização para dispositivos móveis começou como uma forma de personalizar aplicativos e segmentar anúncios, mas se transformou numa máquina de coleta e análise de dados. Uma nova indústria surgiu: a de apps cujo único trampo é pegar dados dos usuários. Segundo o jornal, agências pagariam a esses aplicativos entre meio centavo e dois centavos por cada pessoa. Por mês.

Não ilustre, nem desconhecido

As companhias que trabalham com essas infos dizem que tudo é anônimo. Meaning: as informações coletadas estão ligadas a um ID e não a um nome ou telefone. O objetivo é descobrir padrões de comportamento e não revelar a identidade de ninguém. Mas é possível, sim, que qualquer pessoa com acesso à base  (como clientes ou mesmo funcionários) e conhecimento em análise de dados consiga identificar uma pessoa em questão - como o próprio NYTimes fez com a professora Magrin. Basta ter o endereço residencial do sujeito e seguir o pontinho dele no mapa. Outro argumento usado pelas empresas é o de que os usuários podem desabilitar o serviço de localização, mas as regras desse jogo não são muito claras. Se o app X pede para saber onde você está, alegando que vai conseguir planejar o melhor caminho para você fugir do trânsito infernal da 9 de Julho, às 18h, é mais do que provável que você não só aperte o “sim”, como ainda solte um “manda bala, irmão”. O que você não sabe é se ele irá vender, analisar ou compartilhar esses dados.

Põe os dados aqui, que já vai fechar...

Daí o NYTimes foi lá e fez um teste. Pegou 17 aplicativos que foram apontados por pesquisadores e insiders como plataformas que compartilham dados dos usuários com terceiros. O jornal descobriu que apenas três da lista avisam o cara que suas infos poderiam ser usadas para propaganda. Somente um, GasBuddy, que ajuda a buscar postos de gasolina, alerta que pode compartilhar infos para “analisar tendências da indústria.” Os outros seguiam o modelo: por favor, me dê acesso à sua localização para eu fazer um trabalho melhor. É o caso do app de esportes theScore que, logo após você fazer o sign up, dá acesso às suas coordenadas precisas a 16 empresas de publicidade. Aqui, entra também o lance: quem é que lê as políticas de uso? E mesmo quem se dá ao trabalho de scrollar infinito e entender as letrinhas miúdas do acordo, pode não sacar exatamente o que está assinando, já que a linguagem é bem… uh… ruim. Ruim mermo.

Te dou um dado (tenso)

Se você pensar que o mercado de mobile ads é dominado por Google e Facebook, faz todo sentido considerar que as companhias transformaram o acesso à localização e outros dados em diferenciais na venda de seus anúncios. Em sua defesa, a dupla (e qualquer outra big tech) diz que não vende informações de usuários de forma individualizada. Tanto a gigante das buscas quanto a rainha do social transformam os rastros dos internautas em pacotes que são comercializados em suas próprias plataformas. O Google diz que passou a modificar as coordenadas para que elas sejam menos precisas quando chegam aos anunciantes. Mas, nesse mar de números, tem mais do que dois tubarões. Tem muito peixe pequeno que precisa competir por um naco do market share que sobra. Isso significa vender dados e análises para instituições financeiras, seguradoras de saúde e tudo mais no meio do caminho. Sem o menor pudor.

Roll the data via The Brief