Winter is coming

Se houve um setor que viu o Sol brilhar em 2018 foi o mercado de patinetes elétricos. Com um formato conhecido por quem conseguiu brincar na rua durante a infância e um modelo de negócio simples e acessível, o setor das pranchas motorizadas ganhou a atenção e intere$$e dos investidores do meu, do seu e do nosso Vale do Silício. Em menos de 1 ano, Bird e Lime, as companhias mais famosas desse meio, levantaram quase USD 900 milhões juntas. E, em termos de valuation, a Bird atingiu os USD 2 bilhões em junho, enquanto a última rodada de investimentos, em julho, deixou a Lime com USD 1,1 bilhão. Mas, assim como nas histórias de drama, em que tudo está bem até que não está, o final de dezembro e o começo de janeiro trazem uma senhora ameaça para o setor: o inverno chegou.

Uma scooter só não faz verão

O problema é que a estação é bem pouco convidativa para os rolês de patinete. Não há muito o que se possa fazer com uma scooter quando está nevando ou chovendo o tempo todo. Daí que essas condições meteorológicas criam um fator de sazonalidade para um negócio de bilhões de dólares. Atualmente, cerca de um terço do território atendido por Bird e Lime na gringolândia sofre com o frio de congelar os ossos e aquela chuvinha que castiga o peão all day long. Porém, antes que os investidores questionem onde amarraram seus Teslas, é melhor olhar para o céu, para encontrar a resposta. E não estamos falando de nenhum milagre ou coisa do tipo.

I’ll follow the sun

A primeira iniciativa das startups para não congelar seus negócios é, vejam só, lançar operações em locais com tempo mais deboas. A Bird, por exemplo, colocou seus patinetes para rodar em cidades como Denver e Colorado. Outra alternativa é redistribuir a quantidade de veículos entre as cidades, retirando os que estão largados nas noites frias e solitárias do Norte e levando-os ao Sul, para tomar sol e receber a atenção de usuários que não precisem escolher entre dar uma volta na caranga elétrica ou se arriscar a ter hipotermia. O problema é que, mesmo com as medidas, ainda fica um gap financeiro significativo. Nem a opção de levar os produtos para outros locais é 100% top, já que existem os custos de logística e transporte a serem considerados.

Frozen sabor patinete

A dificuldade em operar em cidades com invernos rigorosos casa com outro cenário comum das startups: encontrar investidores que ajudem a aumentar seu valor de mercado e tragam os dinheiros necessários para manter o negócio rodando. Acontece que o combo “problemas com o clima + regulação + novas concorrentes” aumentou o ceticismo de muitos analistas e, com isso, encurtou o bolso da galera investidora. Daí que as elétricas estão, por assim dizer, ajustando as expectativas para conseguir mais verba. A Lime está em negociações para alcançar USD 500 milhões adicionais de investimentos, mas sabe que seu valuation pode ficar abaixo do esperado. O mesmo acontece com a Bird, que já deu adeus ao sonho de atingir USD 5 bilhões de valor de mercado ainda neste ano. Sem contar os problemas financeiros que elas já enfrentam: em especial, a empresa do limão.

Winter is here for Lime

Antes mesmo do inverno, a companhia já havia queimado boa parte dos USD 70 milhões que levantou em sua Series B, realizada em fevereiro deste ano. Em julho, levantou outros USD 335 milhões. Acontece que a startup mudou de estratégia: trocou o foco em bikes elétricas para começar a atender a demanda pelos e-patinetes. Depois, comprou mais patinetes. Nos primeiros meses de 2018, estima-se que a Lime queimou USD 6 milhões a cada 30 dias. Tudo isso para fazer uma bela limonada na parte final do ano, certo? Errado. Em outubro, o prejuízo líquido foi de USD 23 milhões. E a expectativa é de que a companhia perca “só” USD 11 milhões em janeiro. Tantas verdinhas sendo queimadas no latão do investimento tem um motivo: expandir os negócios e, assim, conquistar alguma vantagem sobre a Bird.

(C)limão siciliano

Mais ou menos por aqui, você já sacou que operar uma startup de aluguel de scooters não é exatamente um passeio de patinete. A Lime tem uma receita de USD 20 milhões mensais, mas gasta outro tanto para manter seus equipamentos rodando por aí. Com tanta verba saindo, a perspectiva é de que a startup vá novamente bater na porta dos investidores para receber capital. E, bem, deve conseguir, mas com uma valorização abaixo da esperada. Corre à boca pequena que a Lime estará com os cofres vazios em pouco mais de 1 semestre. Entonces, mais vale um valuation menor do que fechar as portas. Outro ponto que pegou a startup de calças curtas é o fato de que o Softbank, que investe em praticamente tudo o que pode vir a ser um filão de negócio em tecnologia, não quis envolver seu bilionário Vision Fund no rolê de pranchas elétricas. Então, é bom a startup dar logo seus pulos antes dessa limonada azedar.

Fala que eu te scooter via The Brief