Queda de sinal

Assim como um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, a mesma tática pode não dar certo se for aplicada duas vezes pela mesma empresa. Quem está lidando com essa máxima da vida moderna é o Instagram com o IGTV, a seção dedicada a vídeos mais longos dentro da plataforma, que também conta com um app próprio. Lançado no ano passado, o novo produto não conseguiu repetir o sucesso do primo Stories. Temos números para mostrar? Temos números. De acordo com a Sensor Tower, a estimativa é de que o app do IGTV está instalado em 4,2 milhões de smartphones no mundo. Um número, digamos, humilde, quando a gente pensa que o Instagram tem mais de 1 bilhão de usuários ativos por mês.

Meu canal é mais legal

Mas não é porque o TVgram não faz sucesso que esse mercado está às moscas. O que acontece é que ele já conta com dois representantes que estão bem na fita. De um lado, vemos o Snapchat velho de guerra, que pode não crescer no ritmo que Evan Spiegel gostaria, mas tem a seu favor shows originais, formatos de mídia que atraem anunciantes e um público apegado ao fantasminha — que deve ter crescido após o lançamento dos filtros de bebê (engraçado) e troca de gênero (imbatível). Do outro lado da pista, está o azarão TikTok, que vem conquistando a moçada com seu combo de vídeos curtos e ferramenta parruda de edição

Repaginando a grade

Mas não podemos esquecer que o Insta foi cofundado por um brasileiro e, por isso, está equipado com a configuração “não resisto nunca”. Procurando bombar no mundo dos vídeos, o aplicativo do IGTV passou por mudanças para incorporar uma experiência de uso similar às da concorrência. Abandonou as tabs separadas por temas e colocou todos os vídeos em uma única tela, apostando no colega algoritmo para, com base nas escolhas dos usuários, sugerir conteúdos. Corre à boca pequena que a plataforma também pode testar outros formatos, como novas opções de compartilhamento com o Facebook e um recurso focado em música, para bater de frente com os covers do TikTok. Mas a TV do Mark vai precisar de outras mudanças além do design para deslanchar no mercado

Sitcom com corpinho de documentário

A questão é que o IGTV foi criado para armazenar vídeos de até 1 hora, que não seriam compatíveis com o feed da rede social. E esse formato conflita diretamente com a proposta das outras marcas, que desafiam os usuários a se virarem para criar a melhor história dentro do menor tempo possível — ou se arriscar a ser scrollado e esquecido por outro vídeo mais cativante. Além da diferença de proposta, o app foca bastante na produção de conteúdo dos seus próprios usuários — que, por mais empolgação que tenham, podem não apresentar o mesmo cuidado de produção que as marcas teriam dentro do espaço. Essa é uma vantagem que o Snapchat tem em relação ao TikTok, enquanto o TT leva a melhor no quesito hype. E, nesse meio de campo, o app granulado ainda não encontrou um ponto que o destaque dos outros.

Uma nova TV

O desafio para a plataforma cair nas graças do povo, como bem explicou o Josh Constine, do TechCrunch, é conseguir formar o combo entre recursos que incentivem a experiência de uso e um conteúdo que seja bom o bastante a ponto de incentivar a galera a sair do seu cercadinho de apps e testar algo diferente — como Cobra Kai é para o YouTube Premium. Para isso, é preciso tanto focar em ajudar a comunidade a aprimorar a qualidade do seu trabalho quanto fazer parcerias com uma galera capaz de chamar o público para explorar esse app nunca antes baixado. Afinal de contas, ninguém quer cancelar a temporada corporativa.

Faltou sintonia via The Brief