Leak Wars

Solta o tema de Missão Impossível, DJ. Imaginem só: o colaborador de uma fábrica chinesa bola um plano mirabolante para roubar um caminhão cheio de carcaças do novíssimo modelo de iPhone antes mesmo de ele ser apresentado ao público. A missão tem roteiro de uma das aventuras de Ethan Hunt: o larápio contou com a ajuda de um segurança, falsificou documentos oficiais e ainda fez todo o rolê evitando as câmeras de segurança. A anedota aconteceu em uma fábrica da Jabil, de acordo com a turma do The Information, e marcou um dos vazamentos mais famosos da história da gigante californiana: o lançamento do iPhone 5c. O caso gerou mais desdobramentos do que a revelação do multiverso nos filmes da Marvel.

SWAT da Maçã

O primeiro passo da companhia para evitar novos furos em sua estratégia de segurança foi criar um time exclusivo para impedir qualquer tipo de vazamento. A galera do New Product Security (NPS) tem como obrigação monitorar os fornecedores na China e coibir qualquer espertinho tentando revelar informações sobre seus produtos. Foi assim que a Apple descobriu os planos de um grupo de funcionários terceirizados que pretendia passar a mão em componentes do smartphone com ajuda de um túnel cavado embaixo da planta fabril. Sim, uma espécie de remake chinês de Um Sonho de Liberdade. Como se os casos de funcionários escondendo componentes nas roupas íntimas e cavando túneis não bastassem, o NPS ainda tem que lidar com vazamentos digitais.

O inimigo agora é outro

Esse tipo de informação é ainda mais complicada de reter, porque qualquer imagem esquemática pode revelar especificações. Quer um exemplo? Todo mundo já sabe que o próximo aparelho da marca terá três câmeras em um calombo mais feio que maltratar a mãe e outras poucas mudanças de design. Para evitar esses leaks, as guidelines da empresa demandam que seus clientes usem redes específicas e computadores com uma série de restrições. Mas os caras vão além: a marca tem assessores de segurança — alguns ex-militares — que vistoriam as fábricas antes de qualquer produção começar. Tanto cuidado não acontece sem um motivo: a marca tem uma dificuldade imensa para processar as pessoas que roubam seus equipamentos.

O crime até compensa

Abrir um processo significa que a marca deveria dar descrições detalhadas de seus produtos para a justiça chinesa. A situação fica ainda pior porque o sistema legal do gigante asiático não permite que ladrões sejam processados com base no valor intelectual dos itens. Ou seja, a carcaça roubada de iPhone pode indicar várias informações, mas teria um preço irrisório. De acordo com as fontes ouvidas pela reportagem, vender infos dos próximos aparelhos da Apple rende uma cifra equivalente a 1 ano de salário dos trabalhadores dessas fábricas. Tipo La Casa de Papel. Só que sem o banco e sem os plot-twists ruins. Outros postam imagens de suas conquistas só para ganhar alguns likes e obter fama nas redes sociais. Tipo a vida real mesmo.

Cada leak no seu quadrado

No mercado paralelo, os receptores dos furtos vão desde rivais até assistências técnicas e jornalistas. Sem poder derrubar essa galera, a gigante parte para cima de suas contratadas. A Jabil, do caso com o iPhone 5c, pode pagar até USD 25 milhões em penalidades caso tenha algum vazamento. Daí, algumas dessas marcas acabam descontando nos funcionários. É comum que as mulheres tenham que usar sutiãs sem haste de ferro, por conta dos obrigatórios detectores de metal implementados na entrada e na saída das fábricas. Outra fornecedora, a Foxconn, sugeriu que seus trabalhadores usassem roupas tão justas quanto maiôs de nadadores, para evitar os casos de mãos leves. A Apple teria rejeitado a ideia por ser invasiva demais. Afinal, ladrão que rouba maçã tem anos de péssimas condições de trabalho, reza a lenda.

PS: sim, no fim, quem se ferra é mesmo o elo mais fraco da linha de montagem.

Roubaram os planos para o iPhone via The Brief