Quem procurou emprego até o início dos anos 2000, certamente, se deparou com processos seletivos conduzidos de maneiras inimagináveis nos dias de hoje. Em muitos deles, candidatos eram desclassificados pelas mais diversas razões: distância do local de trabalho, gênero, orientação sexual, idade, faculdade na qual estudavam. Critérios que realmente importavam como competências, o que a pessoa tinha a oferecer ou se estava alinhada com os valores da companhia —que deveriam ser fundamentais — eram deixados de lado.

Muitas coisas mudaram de lá para cá no processo de contratação. O uso de inteligência artificial é um claro exemplo de como a tecnologia veio para facilitar o recrutamento e seleção de novos colaboradores. Não é um facilitador apenas no que diz respeito a triagem de currículos, mas também ajuda a eliminar processos que possam ser baseados no viés inconsciente do entrevistador, que tende a ser injusto por ser fundamentado não em competências e habilidades, mas, sim, em fatores como identificação ou juízos de valor.

Para Andressa Schneider, a principal vantagem desse tipo de processo é que ele busca ser o mais meritocrático possível. “O algoritmo foi programado por humanos, mas são humanos que estão estudando formas de criar processos mais inclusivos, conversando com grupos minorizados, testando a experiência com a máquina, cruzando dados em todos esses testes. É diferente do RH da empresa começar um processo do zero”, avalia a cofundadora do portal de busca e oferta de vagas 99jobs.

Um exemplo citado por Schneider é o processo seletivo para trainee do Magazine Luiza para 2020, feito completamente às cegas. “Os recrutadores têm acesso à data de formação, nível de aderência no teste cultural e a um projeto, no qual o candidato conta como dá ‘match’ com a cultura da empresa. A ideia de manter anônima a identidade do concorrente foi tão elaborada, que até na etapa onde ele pode optar por enviar um vídeo, esse conteúdo deve ser pixelado e com a voz distorcida”.

A diretora executiva de gestão de pessoas do Magazine Luiza, Patricia Pugas, conta que além de os benefícios citados por Andressa, essa nova forma de selecionar colaboradores apresenta duas vantagens. “A primeira é a flexibilização de critérios, pois, programas de trainee têm características limitadoras, como cursos, faculdades específicas, ou até mesmo consideram experiências extracurriculares diferenciais, como, por exemplo, intercâmbios. A outra questão, é que ampliamos o nosso leque, pois qualquer pessoa recém-formada pode se inscrever, independentemente da idade”, conclui.