No escurinho do cinema (por assinatura)

A startup MoviePass foi fundada em 2011 com uma proposta ambiciosa: se tornar uma espécie de Netflix dos cinemas. Ofereceria um serviço de assinaturas a um preço fixo para que seus clientes tivessem acesso às telonas, sem gastar com ingressos. Depois de anos de negociação com redes de cinema, o negócio engatou parcerias com 91% das salas de exibição nos EUA. Ano passado, fez uma oferta que só quem verdadeiramente odeia a sétima arte poderia recusar: uma mensalidade de USD 10, para assistir a até um filme por dia. Não à toa, em fevereiro de 2017, o negócio bateu os dois milhões de usuários cadastrados e se tornou, à la Netflix, empresa queridinha dos millennials.

Já pega o lenço

Agora vem a parte dramática da trama. Acontece que conquistar usuários com uma oferta sedutora assim não é difícil. O complicado é fazer dinheiro. Se a MP é a heroína da história, então essa é a lição que ela vai precisar aprender até o final do filme (ou da grana, no caso). Desde setembro, o negócio vem perdendo USD 21 milhões por mês. Quem banca essa queimada toda de verdinhas é a empresa de big data Helios and Matheson Analytics, acionista majoritária na empreitada.

Uma das ideias da companhia é monetizar o negócio vendendo dados dos clientes. Outra é comprar os direitos de transmissão de determinados filmes para exibí-los em plataformas diferentes - um plano que, vamos dizer assim, não seria lá muito digno do Oscar de roteiro original. De qualquer maneira, antes de começar a comercializar infos dos clientes ou de se tornar a Netflix, a MP tem de remediar outros problemas.

It’s drama time

Para começar, quanto mais assinantes a MoviePass acumula, mais dinheiro ela perde. Acontece que a moeda de troca que o negócio oferece aos cinemas - levar movimento às salas - não está sendo exatamente algo “trocado”. A empresa ainda paga pelo preço integral dos ingressos dos usuários. Fora isso, precisa oferecer atendimento aos dois milhões e contando de clientes, que, aqui e ali, reclamam de problemas cuja causa é: a MoviePass não está dando conta de sua rápida expansão. Tudo isso sem falar nos custos de administrar qualquer negócio.

Um CEO atrapalhado

Soma-se a esse caos um período cheio de aventuras e confusões - para quotar uma sessão de filmes exibida às tardes na televisão - pelo qual a empresa passou neste início de ano. Primeiro,  suspendeu seu principal serviço, o Unlimited Pass, durante duas semanas, por conta do mau uso dos clientes. Centenas de milhares de usuários estavam utilizando o cartão da MoviePass para comprar filmes fora do escopo do negócio e para colegas não assinantes. Teve também uma treta com a rede AMC, uma das maiores dos EUA, que deixou de aceitar os assinantes da MP em várias capitais durante um tempo. E ainda uma fala do desavisado CEO,  Mitch Lowe, que gerou intrigas. O executivo disse que, entre os dados que coleta dos clientes, estão o meio de transporte que usam para ir ao cinema e para onde vão, logo depois que a sessão termina. Depois de se dar conta da gafe, ele afirmou que tudo não passava de uma brincadeira e reduziu o preço do serviço para USD 6,95.

Em busca do final feliz

Para Lowe, o mais importante agora é focar no que essa quantidade crescente de clientes pode trazer à MoviePass. Em outras palavras: mais usuários = mais dados = maior potencial de alavancagem. E alavancagem é a chave aqui. Acontece que só com números absurdos a empresa conseguirá se provar valiosa para estúdios e cinemas. E, mais do que isso, mostrar também que consegue influenciar o comportamento de seus usuários. Nesse ponto, já tem uma vantagem na conta: segundo um tracking feito pelo negócio, 3% de todos os ingressos nos EUA são comprados por meio da MoviePass. E o número salta para 10%, quando a MoviePass faz uma sugestão aos seus usuários.

Ontem, o pessoal da Helios and Matheson enviou um aviso a investidores: encontrou uma maneira de enxugar os gastos. As medidas foram duas. Primeiro, impediu que usuários dividam suas contas com não assinantes. Depois, parou de permitir que eles assistissem ao mesmo filme, mais de uma vez. A notícia não foi lá bem recebida pelos usuários, mas fez os investidores olharem a MP com um pouco mais de confiança. Segundo a HM, as mudanças podem reduzir o déficit de caixa em mais de 35%. Controlar os gastos pode ajudar, mas será o suficiente para manter a empresa no longo prazo? Aqui, vamos ter de mandar um “to be continued…”, mas dizer que a gente espera que sim. Até porque, numa entrevista à Istoé, o CEO revelou que tem planos de trazer o negócio ao Brasil ano que vem.