Minha nova melhor amiga China

Donald Trump não é exatamente a pessoa mais fácil de se entender. Ainda no final de março, o presidente dos Estados Unidos repetia para quem quisesse ouvir que a China era um grande “inimigo econômico.” Na época, ele inclusive anunciou uma série de tributos às exportações do país asiático - incluindo na lista até mesmo itens importantes para as empresas de tecnologia americanas.

E as tarifas eram bem pesadas: no memorando assinado pelo POTUS, a estimativa do governo americano era arrecadar até USD 60 bilhões anuais de taxas das importações chinesas. Quem tinha muito a perder com uma guerra comercial entre os dois países eram gigantes tech, como Intel e Apple. Junto com outras 14 empresas, elas haviam faturado USD 105 bilhões no mercado chinês ano passado - ou 23% de toda a sua receita. Cenário bem negro, mas nada que alguns dias - e situações para lá de cabeludas - não possam mudar. É que, no meio da briga entre Trump e os chineses, havia uma empresa chamada ZTE.

ZTE, o pivô

Uma das maiores fabricantes de smartphones da China, a companhia era cliente fiel de algumas produtoras de componentes americanas. Por “cliente fiel”, leia “entre 25% a 30% das peças que usava em seus smartphones eram Made in U.S.A”. Isso até o momento em que foi pega no flagra, descumprindo regras do governo.

Acontece que a ZTE estava vendendo mercadorias ilegalmente para o Irã e a Coreia do Norte - países que receberam punições comerciais dos EUA. Como Tio Sam não perdoa (ou não perdoava), a chinesa recebeu um castigo capaz de acabar com suas operações: ficaria sete anos sem poder fazer negócio com nenhuma de suas fornecedoras americanas. Como a operação nos States era essencial para o equilíbrio econômico da empresa, a ZTE praticamente anunciou que iria fechar as portas por não conseguir manter o negócio.

Um não quer, dois não brigam

Então, Donald Trump resolveu entrar na história. Ou melhor, em seu Twitter. Foi pelo microblog que o presidente anunciou que irá intervir na situação da fabricante de smartphones. Disse que irá ajudar a ZTE a voltar aos trilhos. Mais precisamente, afirmou que o assunto pode refletir nas negociações comerciais entre EUA e China e, inclusive, em sua relação pessoal com o presidente Xi Jinping. Do tipo: ameacei, mas agora dei para trás.

Amigos, amigos. Negócios fazem parte

Importante saber que o mundo andava para lá de assustado com uma potencial guerra comercial entre os dois países. Logo depois de Trump anunciar sanções às importações vindas da China, o governo de Xi mostrou que estava pronto para dar o troco e aumentou as tarifas para a compra de itens do agronegócio que poderiam deixar os EUA bem mal das pernas. Só de soja e milho, a China é destino de 50% das exportações americanas.

Outro belo argumento para voltar atrás na decisão de banir a ZTE vem de um dos orgulhos do Tio Sam: o Vale do Silício. A chinesa compra uma série de seus componentes de grandes empresas norte-americanas, como os processadores de Qualcomm e Intel, além de ajudar a sustentar outras menos conhecidas companhias de telecom, como Acacia e Oclaro. Sem bons resultados na indústria de telecom e com uma dificuldade para negociar gêneros alimentícios, o tiro de Trump poderia “bater na muralha” e voltar direto para a Casa Branca.

Fazendo as pazes

Desde o final de abril, os presidentes estão ensaiando uma aproximação entre os países. A primeira prova de que a relação não estava tão desgastada foi tuíte de Trump agradecendo a Xi Jinping pela ajuda no acordo de paz entre as Coreias do Norte e Sul. E, no começo desse mês, o POTUS anunciou a ida de um time econômico dos EUA ao país da Muralha para negociar de perto a questão das tarifas.

No final de ontem, já se falava que a China estaria disposta a não prosseguir com as intenções de aumentar as tarifas dos produtos do agronegócio americano, em troca de uma solução para a ZTE. A parceria para salvar a gigante tech acaba reforçando a tese que o resto do mundo já tinha criado: a de que a briga de foice que ambos os países estavam travando traria muito mais dor de cabeça do que lucro, independente do “lado vencedor”.