O Airbnb anda com preguiça do IPO. Também, não é como se a companhia de home sharing tenha de penar muito para conseguir capital. Desde sua fundação, em 2008, a empresa já levantou mais de USD 4,4 bilhões de investidores como o SoftBank e Andreessen Horowitz. Na última rodada, aliás, foi avaliada em USD 31 bilhões. E seus relatórios trimestrais agradam os donos de participação no negócio: em fevereiro deste ano, divulgou uma receita de USD 2,6 bilhões, com um lucro na casa dos USD 93 milhões. Não é como se a grana andasse curta por lá. 

Ainda mais porque, caso seus fundadores precisem de uma graninha a mais para bancar o life style de big boss do Vale, tem jeito mais rápido e menos trabalhoso de conseguir dinheiro. Até onde se sabe, os três criadores do Airbnb já venderam pelo menos USD 350 milhões de sua participação na companhia de maneira privada. Agora, se você quiser dar uma espiada nas impressões dos funcionários, a coisa muda de figura. Foi a Bloomberg que deu: os Airbnbers (existe essa expressão?) estão cada vez mais frustrados com essa demora para a prometida abertura de capital. É que, se a empresa não fizer IPO até o final de 2020, as ações de alguns deles podem expirar.

Não estou disposto

Mas CEO que é CEO aparece nas horas de desespero para acalmar corações. Numa reunião na quinta, Brian Chesky disse à equipe que, sim, senhor, o Airbnb vai abrir capital antes de os papéis dos colaboradores perderem a validade. Avisou que a empresa estaria pronta para tal movimento até junho de 2019. Nas palavras dele: pronta, mas não necessariamente disposta. Ou seja, Chesky não acalmou coração algum. Vale lembrar, nesse ponto da história, da treta que rolou entre o CEO e o ex-CFO do negócio, Laurence Tosi. O capitão das finanças era um dos que levantava a bandeira de que o Airbnb precisava abrir capital ur-gen-te-men-te - algo que o Chesky, declaradamente, não estava muito a fim. Resultado: Tosi disse adeus ao negócio, em fevereiro.

Trend topic

Essa calmaria toda de Chesky & Cia reflete um comportamento que está sendo adotado por outras startups: preferir negociar ações de forma privada a se aventurar no mundo das ofertas públicas. Travis VanderZanden, CEO da startup-sensação de patinetes elétricos, Bird, já declarou que vendeu parte de suas ações para incluir investidores estratégicos na participação do negócio. Outro caso é o de Garrett Camp, um cofundador da Uber, que vendeu parte de suas ações para a firma de investimento TPG a um valuation de USD 3 bilhões em 2013. O próprio Travis Kalanick embolsou USD 1,4 bi ao ceder 29% de sua participação na ride hailing.

Mais dinheiros, menos reports

Esse modelo de venda tem se mostrado bastante sedutor porque dá as empresas o que elas querem (no caso, $$$) sem toda a burocracia de um IPO formal, e pode até proporcionar alguma competitividade no seu mercado. Veja bem, ao tornar uma empresa pública, é preciso abrir o jogo e mostrar seus reports para o mundo. Há quem diga que manter a numeralha escondida dá vantagem competitiva, ainda mais se a concorrência já estiver listada. No final das contas, a única diferença é o tipo de investidor que entra no esquema. Depois do IPO, até o nosso repórter Tiago poderia comprar ações do Airbnb. Hoje, ele não pode, porque não tem nada a oferecer. Nem granola no café da manhã. Pobre, Tiago.

Mas, voltando

O que os funcionários do Airbnb estão na espera é de poder fazer o cash out das ações que detêm. De um jeito simples, funciona assim: aqueles que foram contratados mais cedo pela empresa são os donos de uma maior parte dos papéis (faz sentido, uma vez que mais funcionários = mais diluição). Estima-se que os early investors da Uber conquistem seus primeiros milhões, caso a ride sharing faça o IPO ano que vem, como promete o CEO, Dara Khosrowshahi. Em muitos casos, porém, é possível colocar as mãos nesse dinheiro antes da abertura de capital. Colaboradores podem fazer empréstimos, com base no valor dos papéis que detém. Ou, no caso do que o Airbnb pretende fazer: oferecer dinheiro na hora, em vez das ações, caso exista fome por liquidez.