Não Dell outra

É oficial. Depois de meses de rumores, a Dell finalmente declarou que a Dell (sim, ela mesma) voltará a negociar ações na Bolsa. A gigante de tecnologia teve capital aberto até 2013, quando resolveu que estaria melhor como empresa privada. Foi em 2013 que o fundador e CEO da empresa, Michael Dell, e o fundo de private equity Silver Lake resolveram desembolsar uma grana (entre USD 24 e 25 bilhões) para tirar as ações da companhia de circulação. O objetivo? Sr. Dell queria mais liberdade para executar sua visão do futuro tech: um mundo pós-PC. Não rolou.

Com a cabeça nas nuvens

A coisa estava fora dos trilhos porque a Dell, basicamente, abusou do direito de errar, como diria um infâme narrador brasileiro, chamado Galvão Bueno. O erro foi apostar que os computadores pessoais poderiam ser substituídos por soluções em nuvem. Com um software que emula os PCs, a empresa esperava alcançar esse feito. Por isso, resolveu desembolsar USD 67 bilhões para comprar a EMC. A EMC entra na história porque era dona da VMWare que desenvolve, reparem, um software que emula os PCs. Só que o sonho de se tornar uma empresa de hardware e software nunca se concretizou para a Dell. Como resultado, o valor da ações caiu 31% nos últimos cinco anos.

Dell ruim

Durante esse período, a companhia deixou passar o bonde do smartphone, tablets e semelhantes e até mesmo a revolução dos serviços de nuvem corporativos, deixando Microsoft e Amazon nadarem de braçada. Nas palavras do próprio Michael Dell: “Em 2012, as pessoas diziam que o PC estava morto. Não estava. Há três anos, as pessoas diziam que tudo iria para uma nuvem pública. Acontece que isso estava completamente errado também”. E não é que a nuvem vai ser abandonada pela Dell. Na real, a VMWare pode ser a chave para o futuro da companhia.

Ceci n'est pas une IPO

A história da EMC e da VMWare é essencial para entender como as ações da Dell vão voltar para a Bolsa. Para começar, não, não é um IPO. Acontece que fazer uma Initial Public Offering significa que uma empresa está emitindo ações, que representam partes do total do negócio, para pagar por dívidas ou encher seus cofres com mais grana. No caso da Dell, a empresa está somente trocando um tipo de ação, por outro. Saca só: a Dell pagou USD 67 bilhões pela EMC. Assim, adquiriu uma participação de 80% da VMWare, que era da EMC.

Mas, veja bem, USD 67 bilhões não é o tipo de trocado que você encontra no fundo do sofá. Então, para pagar os acionistas da EMC pela aquisição, a companhia de Michael ofereceu parte do valor em dinheiro e a outra parte numa nova ação, chamada DVMT, emitida pela própria Dell. Essa DVMT representa a fatia que a companhia possui na VMWare, os 80%.

Uma ação para todas governar

Atualmente, os donos de papéis DVMT possuem 50% da participação da Dell na VMWare. Os outros 30% estão nas mãos de Michael e do Silver Lake. Então, o que a gigante tech quer fazer é comprar de volta esses papéis DVMT - e a participação da VMWare. Para isso, irá emitir uma nova leva de ações classe C da Dell e irá oferecer aos acionistas ou um valor em dinheiro pelas DVMT ou esses novos papéis. E esses “novos papéis” serão negociados na NYSE, fazendo da Dell uma companhia pública de novo.

Aquisição à mineira

Com essa estratégia, a Dell vai conseguir, ao mesmo tempo, facilitar sua vida e ter mais bala n'agulha para uma futura compra total da VMware. Ao adquirir todas as ações listadas como DVMT, ela consegue simplificar a sua estrutura financeira. E, com a maioria dos papéis (atualmente bem valorizados), a empresa de Round Rock terá uma vantagem caso, num futuro talvez não muito distante, a VM queira vender o percentual que ainda não está sob o controle de Michael & Silver Lake. Devagarinho (e com uns desvios de rota), a gigante tech vai organizando os trens acionários.