Shut up and read

Quem curte ficção científica já viu alguma série ou filme que tenha um vilão usando reconhecimento facial para capturar o mocinho. Bem, a Microsoft não tem o menor interesse em ver esse filme pular das telas para o mundo real. Ao menos, não de qualquer jeito. A companhia publicou uma mensagem pedindo ao governo norte-americano que atue na regulação da tecnologia emergente. O motivo? Bem, a MS não confia que a indústria tech possa correr solta e livremente quando o assunto é reconhecimento facial.

Men Against Fire

Em um post no blog oficial, o presidente da Microsoft, Brad Smith, fez um convite para uma verdadeira “terapia de grupo” entre o governo e as big tech (Amazon, Google, Apple e outras). A pauta é o desenvolvimento de soluções de identificação e vigilância — que vem sofrendo um backlash forte do público e até mesmo de seus funcionários. “Se há preocupações da sociedade sobre o uso amplo dessa tecnologia, a única forma [de atendê-la] é por meio da regulamentação do governo”, afirma Smith.

The National Anthem

Nos últimos tempos, as gigantes de tecnologia dos EUA estão sendo cobradas por consumidores e pelos próprios funcionários para assumirem um posicionamento cada vez mais maior diante de questões políticas. Primeiro, porque estes são tempos de apelo por transparência e propósito. Depois, porque estamos falando do governo atual dos States, cujas opiniões e ações são extremas (para dizer o mínimo) e dificilmente permitem que qualquer um se dê ao luxo de ficar confortavelmente em cima do muro. Quem lembra de quando os googlers escreveram uma carta pedindo para que a companhia desfizesse uma parceria com o Pentágono?

Hated (and tracked) in the Nation

Esse é só um de vários exemplos recentes. Quando o iPhone X foi lançado, em outubro do ano passado, muita gente questionou o recurso de desbloqueio facial do aparelho. O que aconteceria se os dados dos donos do smartphone fossem parar nas mãos do governo? Em junho, com todo o desenrolar da política imigratória de Donald Trump, funcionários de Amazon e Microsoft endereçaram queixas aos seus respectivos CEOs pedindo para que as companhias cancelassem seus contratos com o Immigration and Customs Enforcement, o órgão responsável por separar imigrantes de seus filhos, na fronteira com o México.

Techhead

Mas nem tudo é bom-mocismo no post feito por Brad Smith. O desenvolvimento de soluções governamentais é um filão para lá de lucrativo. Assim, uma legislação mais forte sobre o assunto pode aumentar a barreira de entrada nesse mercado e, claro, ajudar as big tech. Em contrapartida, a empresa de Satya Nadella promete segurar a mão nas negociações comerciais que envolvem o reconhecimento facial até que novas políticas públicas sejam desenvolvidas.

The Wall-do Moment

E é bom os EUA colocarem as barbas de molho, já que a China anda investindo pesado no assunto. Não à toa, a startup SenseTime se tornou uma das mais valiosas do planeta por seu trabalho na área. A chinesa é parceira da Honda no desenvolvimento de carros autônomos, mas nada impede a utilização de seu know how para vigilância. Especialmente, porque estamos falando do povo da muralha: os policiais já usam dados de câmeras para identificar motoristas barbeiros em Shenzhen. Daí para o mundo virar uma versão moderna de 1984 é um pulo, né? Isso sem falar na ideia do país de estabelecer Social Points.

White Bear*

O post da Microsoft é um feito raro. A indústria tech é conhecida por se incomodar com qualquer interferência de Washington em seu trabalho. Os argumentos aqui geralmente são os de que regras do governo prejudicam vantagens competitivas e dificultam o lançamento de inovações. Ao ser a primeira a se posicionar sobre as regras do reconhecimento facial, a MS mostra que está tentando conseguir o melhor dos dois mundos: seguir as diretrizes éticas cobradas por seus clientes e funcionários e conseguir os lucrativos contratos oferecidos pelas autoridades.

* o intertítulo não tem nada a ver, mas é um episódio incrível