Autoridades vorazes  

A União Europeia mostrou que não tem medo mesmo do Vale do Silício. Mais uma vez. Depois de aprovar a GDPR (General Data Protection Regulation), a nova regulamentação sobre privacidade que as techs terão de acatar para operar por lá, o bloco econômico especificou mais o seu alvo. Ontem, aplicou uma multa recorde de USD 5,1 bilhões ao Google, em um dos movimentos regulatórios mais agressivos já feitos contra uma empresa de tecnologia americana. A UE alega que a gigante de buscas abusa de seu poder no mercado mobile. Na visão dos parlamentares do Velho Mundo, ela “amarra” os usuários aos seus serviços de busca e navegador no sistema operacional Android.

Google - A Estranha

Explicamos. Para dar o acesso ao Android mais recente aos fabricantes de smartphones, a empresa demanda que eles tornem tanto o navegador Chrome quanto o buscador Google ferramentas padrão em seus aparelhos. Em outras palavras, se o usuário quer fazer uma busca, o serviço automático é o da Big G. É uma troca: você usa meu sistema operacional, mas vai ter de me render uns dinheiros em retorno, já que a companhia fatura com as ferramentas. Na visão do Google, está tudo certo, há ganhos para os dois lados. Para a UE, a prática não dá espaço para que as marcas escolham os serviços que querem destacar nos dispositivos considerando fatores mais relevantes para o consumidor.

O ponto que as autoridades europeias sustentam é que a companhia de Mountain View soube como criar uma situação confortável para as fabricantes de smartphones. Graças à parceria, as marcas concentram seus esforços apenas no desenvolvimento do hardware, uma vez que a Big G não só disponibiliza o software, como também permite que ele seja modelado de acordo com as necessidades de cada empresa.

Multas Mortais

A gigante das buscas tem problemas com as autoridades do Velho Continente há muito tempo. A primeira das acusações antitruste veio lá nos idos de 2010. E, bem, o motivo era o mesmo: a União Europeia acusava a empresa de Mountain View de favorecer seus próprios serviços de forma desleal para a concorrência. A nova multa bilionária mostra que a UE não está de brincadeira quando o assunto é regular companhias de tecnologia. Segundo especialistas entrevistados pela Bloomberg, o valor ainda é pequeno. A Alphabet gerou em receita quase a mesma quantia da penalidade a cada 16 dias em 2017.

Onde os iPhones não têm vez

De seu lado, a Google argumenta que a decisão da UE é um ataque a seu modelo de negócios. A companhia alega que precisa que os fabricantes de celulares usem suas soluções porque é dessa maneira que recupera os bilhões de dólares que gasta com o Android. É esse acordo, diz a Big G, que permite que os produtores de smartphones consigam competir nível a nível com iPhones e iPads. Em um comunicado, afirmou que vai recorrer da decisão – o que significa que essa história ainda pode se arrastar por uns bons anos.
 
Quem comemora a decisão da UE é a concorrência. A Mozilla Corp, desenvolvedora do Firefox, acredita que a penalidade vai ajudar a “level the playing field for mobile browser”. A DuckDuckGo, que faz um buscador que não rastreia seus usuários, disse que as ações do Google encolheram o market share da companhia no mundo Android. Nesse ponto do causo, é legal fazer um #TBT. No começo dos anos 2000, a Microsoft foi penalizada pela Europa por usar sua dominação no setor de computadores pessoais para eliminar rivais. O Google, na época uma jovem empresa, estava no grupo das que reclamavam sobre as práticas da MS. Karma is a bitch.

Trump: As Coisas

A gigante das buscas tem 90 dias para encerrar as tais práticas anticompetitivas. Se não conseguir, o estrago pode ser ainda maior: uma multa diária (ênfase no “diária”) no valor de 5% da arrecadação global de sua companhia-mãe. Em 2017, por exemplo, a receita da Alphabet ficou nos USD 110 bilhões. Ou seja, 5% disso dá algo em torno de USD 5,5 bi. E a briga não deve acabar aqui. Especialmente, porque vivemos dias de Donald Trump apontando o dedo para o bloco europeu, impondo tarifas extras a produtos vindos de lá, como aço e alumínio. Em entrevista recente, o mandatário americano criticou as políticas de comércio do bloco e até o chamou de “o inimigo”.