Imagine um dramatic chipmunk aqui

Quem lança qualquer conteúdo aberto publicamente no YouTube sonha em, quem sabe um dia, viralizar. Ou, ao menos, ver o número de views ser maior do que 5. O que a gente quer dizer é que as visualizações são, basicamente, a moeda de troca do YouTube. Foi graças a elas, por exemplo, que um rapper da Coreia do Sul, praticamente desconhecido no Ocidente, se tornou conhecido até mesmo entre quem não era lá dos mais conectados (leia: meu pai). Gangnam Style foi o vídeo de música mais assistido do YouTube durante um bom tempo, um posto pelo qual artistas disputam a ferro e fogo.

Da mesma maneira, marcas usam o número de views para criar qualquer chancela sobre um produto ou conteúdo. Se uma companhia de mídia, por exemplo, decide publicar um vídeo patrocinado pela Whiskas, o primeiro indicador que a fabricante de comida para gatos vai querer saber é: qual o seu alcance?

Is this real view?

Esses exemplos são só para você entender o problemão que o YouTube tem pela frente. Acontece que uma porção de empresas faz dinheiro vendendo views em vídeos publicados por lá. Em buscas feitas pelo The New York Times, os resultados por “easy views” ou “fast views” estão na casa dos milhares, senão milhões. Buscas feitas, diga-se de passagem, no próprio Google, que é dono da plataforma de vídeos. E não são nem views humanos. Com algoritmos capazes de simular o comportamento de pessoas, companhias como 500Views, Devumi, GetLikes e SMMKings estão fazendo rios de dinheiro. E disseminando as chamadas fake views.

Trolololololo…

Quando perguntado porque não derruba esses links, o Google se defende afirmando que o material é relevante. Diz, porém, que criou bloqueios para alguns termos mais descarados. Só que os marketeiros dos fake views usam uma estratégia simples: incluem typos ou insistem vezes seguidas até conseguirem emplacar na ferramenta. O que é, no mínimo, engraçado para um buscador que consegue entender quem estou procurando sempre que digito “dara koswashili uber”. Sim, a gente nem sempre acerta o seu nome, sr. Khosrowshahi.

Me dá meus views, Pedro!

O contador de visualizações é parte intrínseca do que o YouTube oferece: tendência e impacto. Basta dizer que site é considerado a segunda ferramenta de busca mais popular em boa parte do planeta e “a” mais acessada entre os adolescentes, segundo um estudo do Pew Research Center. Os bilhões de views que a plataforma recebe diariamente são o norte para uma série de decisões de negócios. São eles que criam influencers na rede, direcionam em qual comparativo Moto Z2 Play vs. Moto Z3 Play você clica. Em alguns mercados específicos, os views podem revelar artistas, como na indústria musical. A compra de fake views é um hit entre músicos, já que o número de visualizações no YouTube é um dos fatores que compõem a seleção do ranking Billboard’s Hot 100 — a lista que indica o que geral vai escutar em alguns meses.

Mesmo que não sejam revertidos em dinheiro propriamente dito, os views comprados podem funcionar como ponte entre um escritor e uma editora. Afinal de contas, interesse do público é um dos motivos que fazem alguém assinar ou não um contrato na indústria cultural. Sem contar a monetização de vídeos. A quantidade de vezes que o botão play foi clicado é uma das variáveis na obscura equação de quanto o serviço de vídeos paga para seus produtores de conteúdo.

Se eu pudesse, eu comprava mil!

Martin Vassilev é o nome por trás do 500Views. Na época em que criou o site, vivia de auxílio do governo, na casa do pai. Em 18 meses, já tinha casa própria, Mercedez na garagem e uma renda mensal de USD 30 mil. Já Carlton E. Bynum teve a ideia de fundar o GetLikes depois de ele próprio comprar views para seu canal no YouTube. Ele diz que foi um efeito bola de neve: com mais views, ele ganhava destaque no sistema de buscas da plataforma, ganhava mais views e fazia mais dinheiro. Apesar de o YouTube garantir que o número de visualizações é apenas um dos fatores de seu motor de busca, um dos filtros com os quais é possível pesquisar conteúdo na plataforma é justamente “contagem de visualizações”.

Não vai dar (para confiar)

Não dá para dizer, porém, que todos os clientes de sites como GetLikes e 500Views saem satisfeitos. Elizabeth Clayton, uma psicóloga aposentada, pagou a uma editora USD 4,2 mil pela divulgação de seu livro de poesias. A empresa garantiu que os vídeos sobre a obra teriam ao menos dezenas de milhares de views. Em vez do marketing tradicional, a editora pagou USD 270 para que a Devumi bombasse o conteúdo. De fato, as visualizações bateram os 60 mil. Mas não houve nenhum aumento nas vendas dos livros de Clayton.

Já acabou, Jéssica?

Inflar o número de views é contra os termos de serviço do YouTube. Não é à toa, já que a fraude desse indicador gera um baita problema de credibilidade para a plataforma. A empresa não especifica o quanto a prática representa do total de visualizações em seu sistema, mas disse que trabalha para manter o número abaixo do 1%. Legal relembrar que estamos falando de uma plataforma de vídeos que registra bilhões de views por dia. Ou seja, um baita forninho para segurar.