Ah, o Vale do Silício...

A terra onde sonhos se tornam realidade. Quer dizer, tecnologia. Se você ainda tem essa percepção, melhor esquecer. Ao menos é essa a lição da história de um designer australiano chamado Tim Kentley-Kay. Nascido em Melbourne, o sujeito é cofundador de uma startup chamada Zoox, que desenvolve carros autônomos. “Mas tá todo mundo fazendo carros autônomos”, você diz. Pois é, mas a Zoox acredita que tá todo mundo fazendo do jeito errado. Enquanto Waymo, Uber, Tesla e Cruise estão montando seus veículos utilizando tecnologias de empresas diferentes (como chips da Nvidia e o LiDAR da Luminar), essa empresa, fundada em 2014, diz que é preciso fazer um self-driving vehicle from scratch. Do zero mesmo.

Uma das notícias mais polêmicas que rolaram essa semana no Vale foi sobre a demissão de Kay do cargo de CEO da Zoox, anunciada na quarta-feira. Todo mundo ficou surpreso porque, há menos de dois meses, a companhia levantou USD 500 milhões em sua terceira rodada de investimentos, somando USD 800 milhões em aportes. Ninguém entendeu nada sobre o que aconteceu. Nem o próprio Kay.

Ideia (maluca) na cabeça, câmera na mão

A primeira visita que o australiano fez ao Vale foi em 2012. O motivo da viagem: ele havia lido um post no blog da Waymo. Então decidiu que tentaria conquistar sua posição na corrida dos carros autônomos. Assim, do nada. Até então, o sujeito trabalhava como animador e produtor de vídeos para publicidade. Uma vez na Califa, ele começou a contatar alguns dos maiores nomes do projeto “self-driving cars”, com a justificativa de que estava fazendo um documentário sobre as iniciativas do setor. Na verdade, o que ele queria mesmo era trocar uma ideia com algumas das mentes mais brilhantes da área. Pode parecer estranho, mas funcionou. Sua primeira entrevista para o doc que nunca existiu, por exemplo, foi com Sterling Anderson, que virou chefe de self-driving cars da Tesla.

Não crie expectativas, crie networking

Contatos vão, contatos vem, e Kay consegue um papo com Anthony Levandowski, que, na época, era um dos líderes da Waymo - e, mais tarde, se tornou o pivô da batalha judicial entre o braço da Alphabet e a Uber. Em 2014, na segunda ida do australiano para os EUA, ele decidiu forçar a barra um pouco mais. Ficou plantado do lado de fora da casa de Levan, esperando o sujeito sair. Quando, finalmente, conseguiu conversar com o engenheiro, recebeu a indicação de um estudante de engenharia que o Google vinha, há tempos, tentando contratar, mas não conseguia. Seu nome era Jesse Levinson.

A origem de Levinson é bem diferente da de Kay. Ele vem daquilo que a Bloomberg chama de “Silicon Valley Royalty”. Seu pai, Arthur Levinson, foi CEO da Genetech Inc, mentor de Steve Jobs e é chairman da Apple. Mas não foi a família do cara que fez o Google tentar, insistentemente, contratá-lo. Enquanto estava em Stanford, Levinson (o filho) inventou uma nova maneira de calibrar sensores de carros autônomos, com níveis de precisão “sobre-humanos”, como ele diz.

Um príncipe em minha vida

Então, Kay foi atrás de Levinson. Os dois se deram bem e começaram a trabalhar juntos (antes, claro, o engenheiro contratou um detetive para descobrir mais sobre o australiano, afinal, why not). Com todo seu jeitão de falar com as pessoas e sua capacidade de não se intimidar diante de gente pica, Kay ficou com o cargo de CEO. Já Levinson, um cara brilhante, porém tímido, se tornou CTO. Conseguiram levantar o primeiro investimento, de USD 40 mi, em 2015. Um ano depois, receberam USD 250 milhões.

Ninguém sabia exatamente o que acontecia dentro dos grandes galpões brancos da Zoox, em Foster City, até junho deste ano. Foi quando a Bloomberg publicou uma baita matéria sobre os caras, com direito a vídeo de um projeto deles de “táxis-robô”. O mini-filme termina com a equipe da startup enfileirada numa estrada no deserto, galera sorridente e com as mãos no bolso, CEO ao centro, enquanto a câmera se afasta num dolly-out digno de Velozes e Furiosos.

A bomba

A notícia da demissão de Kay pegou o mercado de surpresa, principalmente pelo fato de a empresa ter acabado de receber seu último aporte, de USD 500 milhões. O The Information (paywall) que deu a notícia. Logo depois, o próprio australiano começou uma coleção de tuítes em seu perfil. O primeiro deles, agora fixado, diz que ele foi vítima de um dos piores truques do Vale do Silício, que se vende como uma terra de sonhos, quando, na verdade, é tudo sobre um pouco mais de dinheiro. Disse ainda que não recebeu nenhum aviso, justificativa ou direito de resposta sobre sua demissão. O restante dos posts, dezenas deles, aparentam ser mensagens que recebeu depois de sua saída. Se forem de verdade, boa parte parece ser de funcionários da Zoox: “Tim, I'm not done making magic. Let me know when it's time for the next adventure. I'll follow you into battle anywhere.” Levinson continua como CTO.

No excuses

Então, o Axios foi apurar a história. Fontes disseram ao portal que “a personalidade abrasiva e intransigente” do ex-CEO teria sido o motivo da demissão. Essa queixa, porém, não teria nada ver com qualquer tipo de denúncia sobre fraude, fundos desviados ou assédio sexual - como aconteceu com outros tech stars do Vale. A permanência do empreendedor na Zoox teria sido discutida durante a rodada dos USD 500 mi. Novos e potenciais investidores teriam mostrado preocupação em manter Kay no comando, justamente por causa das características que fizeram ele chegar lá. Ninguém entendeu nada. Nem a gente. Então escrevemos aqui para ver se melhorava.