Crazy Climbing

O nome Atari traz uma baita nostalgia para gamers mais velhos. E essa nostalgia coloca um baita sorriso no rosto do CEO da marca, o francês Frédéric Chesnais. Em 2013, quando deu start em sua gestão, o atual player one da Atari tinha uma dívida de USD 34 milhões para pagar. Atualmente, a companhia não só quitou o compromisso, como também evoluiu de um faturamento de USD 1 milhão para USD 20 milhões anuais. Em uma entrevista recente, Chesnais explica que tem ambições maiores do que simplesmente colocar a casa em ordem. Ele acredita que, assim como em um daqueles RPGs medievais, pode salvar o dia e encher os cofres da lendária marca de videogames.

 

Business Invaders

Fundada por Nolan Bushnell e Ted Dabney, a Atari já foi uma verdadeira máquina de imprimir dinheiro. Começou como uma fabricante de fliperamas e, veja só, foi de Bushnell a ideia de cobrar uma moedinha por cada jogada. Uma sacada simples, mas genial e que abriu espaço para toda uma indústria de jogos arcade. Então, os caras sacaram que poderiam vender os fliperamas em miniatura para que as pessoas jogassem em casa. Daí vieram os consoles domésticos. A graça do aparelho e o que fez seu sucesso era o fato de ser como uma vitrola para a época, porque dava para trocar de jogos. Em 1982, seu melhor ano, 8 milhões de unidades do videogame foram compradas.

Depois de terem estourado tanto, os dois founders colocaram a plaquinha de vende-se e receberam xavecos da Warner Communications. Foram comprados pelo conglomerado em 1976. A aquisição não afetou a boa onda que a empresa surfava. Pelo menos, até 1982. Porque aí veio 1983 e a situação começou a ficar tensa. A indústria de jogos americana entrou em recessão, por motivos de: com mais desenvolvedores independentes surgindo no mercado, havia mais cartuchos esperando para serem soprados do que gente querendo jogar. Junte a isso decisões administrativas erradas e a marca passou a perder dinheiro mais rápido que os fantasmas correndo atrás do Pac-Man.Fun fact sobre esse jogo, aliás: os caras achavam que Pac-Man fosse ser um sucesso tão grande que imprimiram mais cartuchos do que haviam consoles disponíveis.

Um exemplo: o causo envolvendo o lançamento do jogo baseado no filme E.T, que foi esperado como um arrasa-quarteirão, mas decepcionou tanto que teve seus exemplares enterrados no deserto do México. Além disso, a série de títulos, vamos dizer, duvidosos, lançados após o fail extraterrestre fizeram um baita dano na credibilidade da Atari.

 

4 in 1  | Chesnais Cube

Em 2008, o negócio foi comprado pelo extinto grupo francês Infogrames, por USD 11 milhões. Frédéric Chesnais chegou ao comando cinco anos depois. Depois de pedir recuperação judicial algumas vezes e dividir seus negócios entre unidades distintas, resolveu rebatizar a empresa de Atari SA, um grupo focado em quatro áreas de atuação. A primeira, como era de se esperar, é a Atari Games, que tem no Rollercoaster Tycoon Touch o seu carro-chefe, com mais de 200 mil usuários diários. FYI: o jogo é basicamente um FarmVille, só que em vez de plantar cenoura, você administra um parque de diversões. A segunda unidade de negócios é a Atari Casino, que provavelmente ninguém sabia que existia - mas que, com seus jogos de azar, é responsável por 10% da receita da companhia. A terceira, velha conhecida, é a Atari Partners, que basicamente cuida de todos os acordos de licenciamento (leia-se: bonés e camisetas hipsters).

 

Success Quest?

Deixamos por último a área que deve ser a futura queridinha da companhia: a Atari VCS. A divisão será responsável por reviver o legado da marca, que já vendeu mais de 30 milhões de unidades de seus aparelhos até 2004. E, segundo Chesnais, a coisa vai muito bem, obrigado. Até agora, o Atari “vocês” já vendeu mais de 10 mil unidades na fase de pré-venda, arrecadando USD 3 milhões. Só que o cenário deve ser bem mais complicado para esse comeback. Para começar, o novo produto surgiu como uma opção para os nostálgicos relembrarem os games clássicos. De lá para cá, a diretoria mudou de planos e quer ser muito mais. Pretende entregar um produto que é: 1) uma plataforma para desenvolvedores independentes, 2) uma central multimídia para navegação na internet, 3) um emulador de joguinhos antigos e 4) assistente de voz. Tudo isso por até USD 329. Ou seja, mais caro do que a maioria dos smart speakers da Amazon e do que os videogames da geração atual.

Enquanto ainda executa as quests necessárias para sua volta triunfal, a empresa ainda demonstrou que não tem vergonha de tomar decisões duvidosas. Apresentou no ano passado o Speakerhat. Não, você não leu errado, é um boné com caixinha de som pela bagatela de USD 149. Sendo honestos, a gente conhece CEOs (olar, boss) que usariam, com orgulho, essa bombeta da vergonha alheia. No final das contas, a gente até torce para uma vitória da nostalgia a la Stranger Things. Mas, por via das dúvidas, é bom o senhor Chesnais já ir procurando possíveis locais para enterrar os tais consoles excedentes. Assim, só por precaução.