O bico dos VCs

Houve uma época em que um caminhão de dinheiro, uma agenda telefônica recheada, conselhos na ponta da língua e o mínimo de boa vontade eram tudo que um fundador esperaria de seus investidores. Só que, com mais de USD 86 bilhões sendo investidos somente nos três primeiros quarters de 2018, receber um cheque generoso já não faz tanto a cabeça de muita startup. Com um bocado de ofertas na mesa, dinheiro se torna um diferencial menos relevante para negócios hypados. E aí, os VCs começam a recorrer a uma tática para lá de ousada para se diferenciar. Boa parte dessa turma está arrumando bicos em empresas que operam com a gig economy para ter o diferencial “mão na massa”. Secretamente ou não, eles se tornam motoristas de aplicativo, entregadores, funcionários de estoque somente para conhecer a operação. O objetivo é poder dizer, numa reunião com founders, que entendem as dores de um app de transportes ou de um delivery ou de um e-commerce. E, assim, sair de lá com um deal.

Walk the dog, close the deal

Ser hands-on para seduzir empresas não é exatamente uma novidade. Michael Moritz, do Sequoia Capital, por exemplo, chegou a trabalhar como empacotador de supermercado, antes de a firma colocar dinheiro no serviço de compras Instacart, em 2013. O chefe de Global Technology Investment Banking do Morgan Stanley, Michael Grimes, foi motorista da Uber por anos na expectativa de um dia ser contratado para o IPO da ride-hailing. Stacy Brown-Philpot, hoje CEO da Task Rabbit, já limpou o apartamento de um cliente. A diferença é que, agora, o conceito está ganhando o mundo de venture capital. O próprio Vision Fund do SoftBank entrou na onda. O fundo de USD 100 bilhões possui uma lista de emissários dispostos a trampar por um período em empresas da gig economy. Para citar dois exemplos deste ano: 1) antes de fazer um aporte de USD 535 milhões no DoorDash, um enviado do SB foi entregador do serviço; 2) outro trabalhou como passeador de cães, antes de o fundo colocar USD 300 milhões na Wag. Para os founders, fora a questão do dinheiro que falamos lá em cima, conta também uma mudança na visão sobre investidores. Com tanta treta rolando nos boards das gigantes tech, eles querem gente mais parceira e pé no chão fazendo parte dos conselhos.

Undercover investor

O investimento “vida real” também pode expandir a visão em relação ao potencial de cada negócio. Foi o que aconteceu com Nabeel Hyatt, da Spark Capital. Sua firma negociava com a Postmates, uma plataforma que oferece delivery de comida e outros itens (algo como um Rappi gringo). Quando foi para a rua entregar alguns pedidos, Hyatt sacou que o frete era mais caro do que o valor das comidinhas (às vezes, um simples copo de café) que estava entregando. O investidor “mão na massa” ainda percebeu que havia consumidores abraçando o serviço como um verdadeiro estilo de vida. No fim das contas, tanta solicitude virou diferencial na mesa de negociação e a Spark liderou um aporte de USD 16 milhões no Postmates.

Trabalhando com os tubarões

Mas, nem tudo é positivo nessa abordagem de laboratório. Ter um VC fazendo as vezes de um trabalhador “comum” significa uma vaga a menos para o mercado, para falar no português nu e cru. Considere ainda que estamos falando de gente que, apenas em seu trabalho oficial, tira algo em torno de USD 630 mil no ano. Daí, claro, que a tática vai torcer o nariz de muita gente e, por isso mesmo, eles mantêm a dupla personalidade em segredo. Sem contar que, até aqui, pouco se fala sobre como as descobertas dos VCs no chão de fábrica poderiam melhorar a vida de quem ganha o pão real/oficial nessas companhias de economia compartilhada. Em entrevistas realizadas pela Bloomberg, nenhum investidor citou qualquer conversa com colaboradores da gig economy sobre condições do ambiente de trabalho, por exemplo. Então, amigo startupeiro, da próxima vez que pegar um Uber, não custa nada perguntar sobre oportunidades quentes de investimento para o motorista. Vai que...