Prêt-à-Chinês

Faturar USD 30 bilhões em um único dia parece um troço maluco, mesmo para uma gigante do varejo que opera no país mais populoso do mundo. Mais maluco do que isso é imaginar como deve ser a operação do e-commerce e seus parceiros para processar, registrar e enviar todos os pedidos feitos durante o Singles’ Day, por exemplo. A edição deste ano do feriado, no qual os chineses solteiros comemoram o fato de estarem na pista fazendo compras, foi o mais lucrativo da história para a Alibaba. E também foi o primeiro no qual a companhia testou um sisteminha que tornou a vida muito mais fácil para quem vende roupas pelo marketplace.

Até ano passado, a preparação de um fornecedor da Alibaba para o Singles’ Day poderia ser resumida assim: sabe caos? Wu Jianfeng, dono da fabricante de roupas Banzuo Garment Manufacturing, lembra bem desses dias. Ao melhor estilo sábio chinês, ele conta: “nós costumávamos repetir: 'o vento crescente pressagia a tempestade que se aproxima’”. Era sobe e desce de escada para lá, ligações de cliente para cá, até que o vento crescente virou ventinho. Em 2018, não teve tempestade. Deu até para parar tudo e tomar um chá no meio do dia.

O e-commerce que tudo vê

Tudo por conta de uma solução tão assustadora quando o “olho de Sauron”. Começa com um conjunto de 20 câmeras. Cada uma delas está integrada a um software, que é capaz de rastrear os movimentos dos trabalhadores da linha de produção enquanto eles modelam, costuram, cortam e pregam acessórios naquele vestido do Aliexpress que você nunca acerta o tamanho ideal. A partir daí, essa filmagem usa o reconhecimento de gestos para calcular quantas peças estão sendo costuradas em tempo real. Todas essas informações são processadas por algoritmos em nuvem da Alibaba que, então, passa tudo adiante para o DingTalk — uma espécie de Slack, também desenvolvido pelos pupilos de Jack Ma. É por meio do DT que os lojistas recebem updates e estimativas sobre a fabricação de itens e um pouco de paz de espírito sobre seus pedidos. Isso porque, no caso de qualquer problema na linha de produção, eles recebem uma notificação push avisando. E a inteligência artificial desenvolvida pelos chineses ainda decide a melhor rota para colocar a fabricação de volta nos trilhos.

Ali-Data

De um jeito simples, o que a gente quer dizer é isso daqui:

  1. Imagine a enorme quantidade de dados de consumidores que a Alibaba já tem. Agora, imagine a capacidade do e-commerce de entender e prever as necessidades de produção, por conta dessas infos.

  2. Pense como, com esse novo sistema, a empresa vai poder passar essas infos para os fornecedores, controlando a produção em tempo real. Considere ainda que os lojistas que vendem na Alibaba e compram desses fornecedores vão poder evitar os problemas de itens em falta ou estoque encalhado.

  3. Por fim, leve a mão à cabeça e solte um “c#raaaalho” para mostrar que você entendeu.

Dorme com esse barulho, Fordismo. E a Banzuo é só uma das 20 fábricas que contratou esse novo modo de produção desenvolvido pela Alibaba. Sim, é isso mesmo, elas pagam para serem otimizadas pelo e-commerce. Em setembro, durante um evento da empresa, Jack Ma já havia mencionado sobre como o novo jeito de produzir terá um grande impacto nos fabricantes tradicionais da China pelos próximos 15 e 20 anos, dificultando a vida daqueles que não têm infraestrutura digital. “Traditional manufacturing depends on electricity, while ‘new manufacturing’ will depend on big data.”

Costurando bons negócios

E a Alibaba não é a única gigante chinesa de olho no chão de fábrica. A Tencent também tem suas iniciativas para otimização de produções. O fundador da consultoria Lishi Business Review, Liu Xuehui, tem uma teoria para a entrada da dupla no setor: pura necessidade. Segundo o analista, a dupla tem um modelo de negócios baseado na venda de produtos online para consumidores. Só que esse mercado está chegando em um ponto de saturação. Prova disso é que o último report da Alibaba aponta uma desaceleração na grana vinda do comércio eletrônico. Ao retroalimentar o sistema com soluções que otimizam a produção, essas gigantes estão ganhando dos dois lados. Primeiro porque descolam uma nova fonte de arrecadação e, de quebra, garantem a saúde de suas “lojinhas” de bilhões de dólares.