Concorrente-mente

A vida andava zen para a Headspace. Fundada em 2010, a startup conseguiu se posicionar de forma bem-sucedida como referência no mercado de apps para meditação. Desde sua criação, levantou USD 75 milhões em investimentos. E seu modelo de negócio, baseado em assinaturas, atingiu 1 milhão de clientes em junho deste ano, mostrando que cada vez mais a galera está dando uma chance à técnica em busca de uma vida mais equilibrada. Equilíbrio, aliás, é uma característica que a empresa de Richard Pierson e Andy Puddicombe vai ter que exercitar bastante para conseguir lidar com um concorrente que chegou de mansinho, mas já conta com uma fama capaz de tirar dos eixos até os executivos mais trabalhados nas good vibes.

MindZebra

Estamos falando do Calm. Lançado em 2012 por Alex Tew e Michael Acton Smith, o app possui recursos tanto para quem deseja enveredar pelos caminhos da meditação como funcionalidades para ajudar a dormir. Tem um design mais “clássico” do que o HS, abusando das cenas de paisagens que a gente espera ver num aplicativo como esse e com um nível menor de gamificação. Até dezembro de 2017,  ele era aquele tipo de app que havia conquistado seu lugar, mas estava longe de ameaçar a toda-poderosa primeira colocada. E o que aconteceu em dezembro de 2017? A premiação de Melhores Apps do Ano da App Store. E mandamos um like maroto para quem adivinhar quem ganhou a categoria de Melhor App do Ano para iPhone. Desde então, eles está em primeiro lugar na categoria Meditação. E não parece muito afim de ceder o lugar.

Muita Calm, nessa hora

Desde que recebeu o prêmio da Maçã, a curva de crescimento do app se transformou numa reta mais inclinada do que as ladeiras de Perdizes, com um percentual acima de 800% quando comparado com os números de 2015. Esse aumento também se traduziu em grana. De acordo com dados da firma de análise Sensor Tower, o Calm conquistou a primeira posição da categoria tanto no número de downloads como em receita, colocando no bolso cerca de USD 50,7 milhões. Nas análises da mesma firma, o Headspace estaria bem atrás, com receita estimada em USD 34,3 milhões. Dentro desse período, o app premiado também conseguiu empatar com o Headspace no número total de downloads do app (38 milhões) e já atingiu o mesmo 1 milhão de assinantes pagos. Dentro do escritório da startup, em San Francisco, o discurso é de que assumir de vez o primeiro lugar é só uma questão de tempo. "Vamos ultrapassá-los logo mais", chegou a dizer  o Chefe de Produto Dun Wang, em entrevista para o Wall Street Journal.

Headache for Headspace?

Ao que parece, a Headspace não vê o cenário da mesma forma. Para começar, diz que os dados da Sensor Tower não levam em conta as assinaturas realizadas por meio do site ou as parcerias corporativas da startup. Para se diferenciar, o aplicativo abusa de um visual de cartoon e quer ampliar suas atuação no segmento business. Segundo o diretor global de parcerias da empresa, Ross Hoffman, a HS já fechou acordos com mais de 300 companhias para que a assinatura do app virasse um dos benefícios de empregados de Unilever, Adobe, LinkedIn e outros nomões do mundo corporativo.

Keep calm and profit

O motivo para tanto bate cabeça é o fato de que a indústria da meditação (incluindo aulas, workshops, livros e apps) teve seu valor estimado em USD 1,2 bilhão no ano de 2017, de acordo com pesquisas da Marketdata Enterprises. E, com a maioria das pessoas precisando de uma ajudinha na hora de encostar a cabeça no travesseiro e dormir, nada indica que esse número vai diminuiu. O boom do mindfulness fez com que surgissem mais de 2 mil aplicativos relacionados ao tema nos últimos três anos. Mas, não tem jeito, olhando para a receita gerada pelo segmento, temos 85% dominada pela dupla Headspace e Calm. Os dados também são da Sensor Tower.

Contando carneirinhos (e parceiros)

Além disso, para os lados da Headspace sobra aquele shade cheio de plenitude para os lados da concorrência: “se você precisa se consultar com um psicólogo, eu gostaria de saber onde ele se formou. É o mesmo com meditação”, comenta Pierson. O que o cara quer dizer, nas entrelinhas, é que os fundadores da Calm já trabalharam em empresas de jogos online e propaganda. Por sua vez, a galera do “aplicativo calmo” diz que as tais parcerias comerciais da rival não têm a “sustância” necessária para engordar o faturamento. E mais: atende alguns clientes corporativos, como a PricewaterhouseCoopers e Samsung,  mas “não precisa fazer ligações para ninguém”. Acontece que a empresa diz que os próprios clientes entram em contato após ofertas da Headspace para planos corporativos. Ouch! A gente só consegue terminar essa nota com o seguinte comentário: rapaz, se tudo isso é depois de meditar, imagina se esse povo não fizesse yoga.