Duro de entregar

O próximo fim de semana é a única barreira que nos separa do natal. Uma das datas comemorativas mais importantes do Ocidente se caracteriza pela troca de farpas e, eventualmente, presentes entre familiares e amigos. Não é um absurdo dizer que os pequenos agrados encaixotados com laço até salvam alguns jantares incômodos. Em 2018, podemos imaginar um drone da Amazon fazendo uma entrega triunfal — bem antes da meia-noite — de um pacote comprado de última hora. Deixando a viagem natalina e futurista de lado, a gigante de Seattle tem um plano muito mais pé no chão para se manter com as encomendas em dia nas festas de fim de ano. Ou seria melhor dizer, com os pneus no asfalto?

Operação presente

Nosso palpite é que o delivery via Prime é, provavelmente, o mais perto que a humanidade vai chegar do feito que consagra o Papai Noel: dar conta de uma porção de presentes em apenas uma noite. No entanto, ao contrário do bom velhinho, a empresa prefere um modelo mais conservador: motoristas equipados com suas vans. Sim, igual a qualquer outro entregador que você possa imaginar. Em 2018, Jeff Bezos apostou em um programa de pequenos empreendedores do ramo de transportes e transformou todos eles em seus ajudantes. A promessa é de ganhos anuais de até USD 300 mil e um investimento na casa dos USD 10 mil — uma distância considerável para os USD 1 milhão de verdinhas yankees necessárias para assumir uma das rotas da FedEx.

A very Bezos Christmas

O motivo para a gigante tech apostar em uma ideia tão old school e adicionar pequenos apenas alguns “toques de Uber” é simples: a hell of a demanda. A Amazon tem mais de 100 milhões de usuários em seu serviço Prime nos EUA. O modelo de assinatura anual garante frete mais rápidos aos clientes da loja virtual. Sem contar que essa é a época que comba Black Friday + Cyber Monday + feriado de ação de graças + natal. Some a essa equação mais um dado. Sozinha, a marca já responde por, praticamente, metade de todas as compras feitas em e-commerce nos EUA. Para construir sua rede de motoristas, o time de Bezos ajuda os parceiros a conseguirem descontos em vans, contratos de seguro e oferece um fluxo constante de pacotes. Atualmente, a companhia trabalha com mais de 100 parceiras nessa atividade e pretende ampliar o programa em 2019 ainda mais.

O estranho mundo dos fretes

Do lado dos couriers que topam o rolê o desafio é maior: recrutar trabalhadores que consigam atingir os padrões de qualidade, rodem mais que notícia ruim — em condições pouco amigáveis — e sigam contentes com o salário modesto. A administração dessa rede deixa até mesmo a amazona em situação curiosa. Ao mesmo tempo que terceiriza suas entregas, o serviço Prime tem um nome a zelar. Traduzindo: ao cobrar um padrão, a galera de Seattle se arrisca a ser processada por melhores salários como se fosse empregadora dos motoras. Afinal de contas, é o logo da gigante que está nas caixas que eles transportam. Não que esse risco não seja calculado, já que a companhia está resolvendo seu problema logístico sem tirar dinheiro do próprio bolso. E a ampla rede de pequenos parceiros dá a ela mais poder de barganha em relação à FedEx ou mesmo ao serviço postal dos EUA.

Meu motorista é Noel

Um dos atrativos do modelo proposto é a possibilidade de escalar de forma quase tão surpreendente quando o fato de um senhor de idade ter que descer uma chaminé para entregar presentes noite a fora. Em um dos formatos, chamado Flex, os parceiros podem usar seus próprios carros nas rotas. Um delivery ao melhor estilo Uber. Com uma demanda quase insaciável de pedidos sendo encomendados, não é raro que alguns dos trabalhadores desse formato precisem dobrar turnos, ampliar equipes em questão de semanas e correr atrás dos pedidos. Mas, afinal de contas, porque os drones são rena fora do trenó de papai Bezos? O caso é que, como qualquer nova tecnologia, os flying robots ainda dependem de uma série de regulações para funcionarem. Ou, nas palavras do CEO da companhia de delivery on-demand Dolly, Mike Howell: “a Amazon não tem tempo para esperar por drones. Ela tem que perseguir seu modelo velha guarda mais por necessidade do que por desejo”.