A gente vai contar como a história da Walker & Company termina. Fundada em 2015, a startup de cosméticos levantou mais de USD 33 milhões em investimentos antes de aceitar uma oferta de aquisição feita pela gigante Procter & Gamble no fim do ano passado. Mas, a lição de hoje não é sobre como criar negócios para serem comprados a peso de ouro. E sim sobre como seu CEO e fundador, Tristan Walker apostou em uma “má ideia” — e em seu olhar afiado para desafiar um mercado que insistia em dizer que ele estava errado.

Em um episódio recente do podcast Masters of Scale, Walker conta como, depois de liderar o time de business development no Foursquare, resolveu seguir seu “sentido aranha” e empreender. Seus primeiros oito meses não foram dos mais promissores: as ideias iam de fundar um banco até resolver o problema de obesidade global. Até que ele se voltou para um projeto um pouco mais pessoal: os barbeadores disponíveis no mercado machucavam sua pele negra.

Acontece que a promessa de um barbear mais rente, feito por inúmeras lâminas nem sempre significa um produto que atenda todos os públicos. Afinal, os barbeadores, em geral, ainda são direcionados para 1) homens brancos e 2) com pelos lisos. O que deixa uma boa parte do mundo de fora, certo? Só que era justamente para esse tipo de investidor que Walker apresentava seu pitch. E, por ser um problema que não fazia parte da vida dessa turma, o empreendedor teve que escutar coisas como “é algo de nicho” e “não é escalável”.

Andando no fio da navalha e depois de 99% de nãos, Tristan lançou a marca Bevel, que se tornou um sucesso tão grande a ponto da empresa expandir seu portfólio com uma linha de cosméticos para cabelos femininos. Curiosamente, o CEO da Walker & Co. ouviu que ele estava tentando criar a Procter & Gamble para o público negro. Nas palavras do próprio Tristan: “Deixe eu te falar sobre isso por um segundo, porque é algo curioso. Número um — eu nunca disse isso. E, então, número dois — é interessante — eu acho que as pessoas falam [da marca] como uma coisa de nicho, mas as ‘pessoas de cor’ são a maioria no mundo. Então, se nós somos a Procter & Gamble para negros, o que diabos é a Procter & Gamble?”. O quão irônico é o fato de que startup agora é uma unidade de negócios dentro da ex-concorrente? Bastante. Mas, mais importante é que, no fim das contas, a ideia de Walker nunca foi tão má assim.