Arqueólogos tecnólogos

O jornalista americano Chris Anderson publicou em 2006 um livro que fez sua fama ganhar o mundo. Chamada A Cauda Longa, a obra pode ser resumida mais ou menos assim: a criação da internet tornou possível atender mercados extremamente segmentados, sendo capaz de satisfazer os desejos de consumo de quem procura por produtos importados ou mesmo itens nacionais, mas que são fáceis de achar. Corta para 2019 quando outro homem, também chamado Chris Anderson, prova que a tese do seu xará estava mais do que certa. A profissão do Chris 2? Comprar itens raros que estão bombando no marketplace da Amazon e vendê-los por um preço mais polpudo para compradores interessados.

O templo da aquisição

O segundo personagem dessa história faz parte de um grupo conhecido como “nômades da Amazon”. Pessoas que andam de loja em loja tanto para atender alguma necessidade específica como para “montar um estoque” de produtos com potencial de entrar na lista de itens procurados. Essa ocupação só é possível graças à estrutura montada pela companhia de Seattle, que disponibiliza serviços como um app para vendedores, usado por essa trupe como um termômetro para medir quando vale à pena sair em busca de um produto específico. Aliado ao aplicativo, a firma também conta com um programa no qual esses vendedores podem despachar as compras para armazéns específicos, onde a própria amazona se encarrega em organizar e despachar as compras. Precisando só de um smartphone e de um carro para trabalhar, boa parte desses garimpeiros modernos cai na estrada. Literalmente.

A Grande cruzada (pelo país)

Quase todos os nômades que conversaram com o The Verge para a matéria que o portal fez sobre o assunto não têm uma residência física. Eles vivem em carros adaptados ou em hotéis enquanto cruzam os Estados Unidos. O trabalho: explorar lojas de cidades pequenas ou unidades de redes que estão prestes a falir (como a Toys R’ Us) em busca de objetos como edições limitadas, utensílios que saíram de circulação ou algo ainda mais específico que esteja bombando no marketplace. Como não existe um trajeto certo, muitos escolhem se agarrar a algum padrão, desde seguir uma direção do mapa até acompanhar a mesma rota de uma banda favorita. A relação entre os “rivais” costuma ser bem cordial, com direito a grupos de conversa e happy hours quando acontece de um pessoal estar na mesma cidade.

Caçadores das coisas perdidas

A rotina de um nômade é dividida em duas tarefas: pegar a onda de um determinado hype e procurar itens em locais remotos que estão esgotados nas cidades grandes e, por isso, custam uma bica dentro do e-commerce. O último produto que despertou uma corrida geral foi uma edição comemorativa da bolacha Oreo em homenagem à série Game of Thrones, que saiu igual pão quente. Já um exemplo de artigo que vale a pena procurar é uma barra de sabão chamada Bounce Dryer Bar. Ela é colada na parte de dentro da máquina de lavar, fazendo com que não se precise repor o sabão em pó em cada lavagem da máquina. Antes vendido por USD 5, o produto foi cancelado, gerando uma busca absurda por ele na internet. Agora, segundo  o Anderson andarilho, dá para pedir, facilmente, uns USD 300 que se encontra alguém disposto a comprar.

Aventuras da vida moderna

Mesmo quem se encontrou nesse trabalho que também é um estilo de vida reconhece que existem algumas dificuldades bem pesadas. Desde enfrentar condições climáticas (que nos EUA incluem ciclones, nevascas e furacões), passando por dormir em locais bem duvidosos e recaindo em crises de solidão. Porém, a maioria dos entrevistados acredita que as vantagens compensam em muito os momentos bad vibes. E não é só a parte turística: todas as pessoas que conversaram com a The Verge explicaram como, ao lidar com um mercado tão movido pelo consumismo, a relação que elas tinham com bens materiais acabou mudando para o estilo menos é mais. Deu até vontade de experimentar essa rotina numas férias da vida: mesmo se nada der certo nesse road trip profissional, pelo menos as fotos do Insta estão garantidas.