Em busca de sentido

Qual é o propósito de uma empresa? Para muita gente, essa resposta é meio barbada: maximizar os lucros de seus donos. Bem, era isso mesmo até a Business Roundtable divulgar uma declaração que pode mudar um pouco essa relação de forças. Para quem não sabe, a entidade representa alguns dos CEOs mais poderosos dos EUA. Meaning: Tim Cook (Apple), Safra Catz (Oracle), Alex Gorsky (Johnson & Johnson), Virginia Rometty (IBM), Jeff Bezos (Amazon) e vários outros. Os executivos acham que é uma boa hora para redefinir o propósito das corporações. Para começar, a ideia de que os acionistas devem estar acima de tudo precisa ser ajustada. Segundo a organização, tá na hora de equilibrar as necessidades dos diversos grupos que fazem parte de uma companhia. Especialmente em uma época de desigualdade de renda.

 

“O que é isso, companheiro?”

É o que você deve estar se perguntando desde o exato momento em que leu a última frase do parágrafo anterior, certo? Ok, ninguém aqui está falando que a galera surtou lá na terra dos mestres do capitalismo e quem implementar um regime diferente, mas dá uma olhada nesta frase aqui: “Os americanos merecem uma economia que permita que cada pessoa seja bem-sucedida através do trabalho duro e da criatividade e leve uma vida de significado e dignidade". Quem assina a declaração é Jamie Dimon, presidente da “Mesa Redonda dos Negócios” e CEO do JPMorgan Chase. Bem capitalista para nós. Mas qual é a real sobre a situação? Explicamos depois do break.

 

Breaking the law

Além do contexto atual dos EUA — pós-recessão e tudo mais —, a declaração fecha um capítulo na história da própria organização, que atua fazendo aquele lobby maroto pelos executivos. Antes, a BR defendia a tal tese de que os acionistas vinham primeiro na fila do pão. Ou, melhor, dos lucros. Não quer dizer que os shareholders serão deixados para trás a partir de agora. No entanto, ao que parece, a ideia é incluir comunidade e funcionários na história. Além, é claro, de tirar um peso das costas dos CEOs: os resultados de curto prazo. Acontece que os ganhos de vários desses executivos estão atrelados ao quanto de grana eles trazem para os acionistas na forma de valorização das ações. O que pode forçar uma política de tomada decisões imediatistas e que nem sempre produzem um crescimento sustentável no longo prazo. É aquela coisa, receita que você não pode prever é sempre, duh, imprevisível. 

 

Grandes contracheques...

Por outro lado, a declaração também soa como uma espécie de “malz aí pelo vacilo”, já que o salário dessa galera tem um abismo cada vez maior em relação ao “average Joe ou Mary” das empresas. Um levantamento do think tank Economic Policy Institute aponta que a remuneração de executivos cresceu 940% desde o fim dos anos 1970, contra cerca de 12% do salário da peãozada — tipo a gente — no mesmo período. Some a isso o fato de que as grandes corporações estão na mira dos políticos na terra da torta de maçã.  A gente já falou aqui, por exemplo, que a candidata democrata à presidência dos EUA, Elizabeth Warren, tá de olho nas big tech em vários aspectos: 1) tem planos para dividir algumas dessas empresas e 2) acha que os membros de seus boards deveriam ser escolhidos pelos funcionários. Já Bernie Sanders (candidato do mesmo partido) acha que as empresas não deveriam comprar de volta seus papéis antes de garantirem melhores pagamentos e benefícios para os trabalhadores.

 

Pequenas responsas

Já falamos sobre as demandas para que empresas se posicionem sobre questões sociais, como diversidade, equidade de pagamentos e por aí vai? Então, tem isso aí também. Ou seja, ser um CEO hoje em dia não é só se sentar em uma cadeira legal de couro e poder planejar as férias em uma ilha paradisíaca em Bali. Quer dizer, ainda é isso, mas tanto poder não vem mais sem nenhuma responsabilidade. E é o que nos traz de volta para a declaração da Business Roundtable. Parece uma boa forma de começar a dar uma resposta para tais demandas. Nem que seja só no discurso.