Nos últimos anos, tornou-se cada vez mais comum que funcionários ultrapassem seus horários de trabalho apenas porque é “cool”. Pare para pensar: quantos colegas seus já não se gabaram por terem virado a noite no trabalho para entregar um projeto? Do lado de cá, nós, como jornalistas (uma área repleta de jornadas extras), já perdemos as contas de quantas vezes ouvimos uma história dessas.

Durante muito tempo, a cultura do “dormir menos para produzir mais” imperou. Agora, porém, essa atitude está se mostrando uma verdadeira inimiga dos bons resultados e do alto desempenho de colaboradores. A ideia é que, a longo prazo, a privação de sono pode trazer mais prejuízos do que benefícios. De um lado, o funcionário fica cada vez mais cansado e não consegue render tão bem quanto antes. De outro, a empresa pode deixar de contar com um profissional que superproduziu por um tempo, mas que esgotou sua reserva de energia.

Essa situação é ilustrada por uma pesquisa realizada pela Harvard Medical School, que aponta que a insônia causa, em média, 11 dias por ano de baixa produtividade. Ainda, de acordo com o estudo, isso pode significar individualmente um prejuízo de US$ 2.280, um valor que, somado, pode chegar a perdas de cerca de US$ 63 bilhões anuais às empresas (devido principalmente à falta crônica de uma noite adequada de sono aos funcionários).

Bons sonhos

Arianna Huffington é um exemplo vivo do que a privação de sono pode causar. A executiva se tornou ávida defensora de uma boa noite de sono para todas as pessoas depois que ela, em 2007, simplesmente desmaiou de exaustão. “Eu aprendi da maneira mais difícil o valor do sono”, afirmou ela, durante uma apresentação no TEDx.

Ela conta que chegou a bater a cabeça e a quebrar o osso da bochecha no desmaio (o que também lhe rendeu cinco pontos próximos do olho direito). “Eu comecei a jornada de redescobrir o valor do sono. E, enquanto isso, estudava, me encontrava com médicos e cientistas e estou aqui para lhes dizer que o caminho para uma vida mais produtiva, mais inspirada, mais alegre é dormir o suficiente”, completou a executiva.

A partir dessa jornada, a criadora do site Huffington Post abandonou a plataforma para fundar a startup Thrive Global, que visa conscientizar trabalhadores quanto aos benefícios do sono, bem como trazer inspirações sobre produtividade e bem-estar. Na mesma toada que Arianna, outros serviços que ajudam as pessoas a entender mais sobre os danos que uma noite mal dormida pode causar estão surgindo (e se tornando cada vez mais populares): os coachings de sono.

Meg Spender é uma dessas especialistas no ramo. A profissional atua como coaching de sono pela Wellness Coaches USA e descreve a situação como “um problema desenfreado”. "Os prazos, as obrigações e as exigências têm seu impacto", afirma ela, em entrevista à revista Inc. Esses coaches oferecem treinamento para empresas e ajudam corporações com questões sobre como auxiliar funcionários a dormir bem e ficar acordados durante o dia, bem como fornecem suporte ao sono pessoalmente, por telefone e online.

Por que as pessoas não dormem o suficiente?

Apesar do aumento de demanda e responsabilidades que são atribuídas a cada funcionário (geralmente trazendo mais estresse e mais tempo na frente do computador), esses não são os únicos fatores responsáveis por esse cenário em que os indivíduos dormem cada vez menos. Especialistas afirmam que o maior problema é dar prioridade a outros afazeres e não tratar o sono como ele realmente deveria ser tratado.

“Vemos o sono como um luxo, mas é uma necessidade”, afirma James Maas, consultor internacional de sono e desempenho e também autor do livro Power Sleep. O problema é que a falta de sono causa não apenas baixo desempenho no trabalho, mas também contribui para doenças crônicas como diabetes, obesidade, doenças cardíacas e depressão, segundo Mark Clermont, presidente da Provant, uma companhia especializada em bem-estar corporativo. Para empresas, isso também pode representar gastos com licenças e planos de saúde.

Prontos para dormir bem?

Se você ficou preocupado com os males da privação de sono e quer dar uma arrumada na sua noite, confira a seguir algumas dicas compiladas pela Inc. para dar uma mãozinha nessa jornada de descanso:

1. Largue o telefone

Esse é o mais difícil dos desapegos que se deve fazer antes de dormir (sim, sabemos como é quase impossível resistir àquela vontade de dar uma última espiada no Instagram ou no WhatsApp). Ah, isso também vale para televisão, tablets e outros eletrônicos que podem tirar a sua atenção e dizer ao seu cérebro "continue acordado", graças àquela luzinha do stand by. Se quiser dormir bem, dê um jeito de não focar nesses aparelhos antes de se deitar.

2. Preocupe-se menos

Quantas noites você já passou sem dormir pensando nas milhões de atividades que tem para entregar no dia seguinte? Quem nunca sofreu com isso, que atire a primeira pedra. De acordo com Maas, o estresse é uma das principais causas da insônia. E, quando o pensamento está só no trabalho, as preocupações com a família e outros assuntos pessoais ficam em segundo plano – e isso só agrava a situação.

“Ficamos preocupados conosco, com nossos cônjuges, filhos, pais", diz Maas. “Estamos muito ocupados durante o dia, então as preocupações aparecem à noite". A recomendação do especialista é pensar nas preocupações que podem deixá-lo acordado à noite e anotá-las em um bloquinho, que você deve deixar ao lado da cama. Assim, se você acordar no meio da noite com algum pensamento, anote-o (como se estivesse fazendo o download daquela ideia) e se preocupe com ele apenas no dia seguinte.

3. Sono segmentado

Apesar do nome estranho, essa é uma técnica antiga, usada na era pré-industrial e ainda utilizada por muitas pessoas. A ideia consiste em ir para a cama assim que o sol se pôr. Depois, acordar naturalmente por uma hora ou duas no meio da noite e voltar à terra dos sonhos até o sol aparecer de novo.

Esse tempinho “vago” entre uma dormida e outra pode ser usado para ler, escrever, meditar, ou qualquer outra atividade que você considere relaxante (e que não envolva ficar grudado no seu smartphone). Parece loucura, mas muitas pessoas funcionam bem dessa forma.

4. Tome um pouco de sol

Em vez de pegar o celular ou encher a cara de café logo que acordar, a dica é tomar um sol. Estudiosos dizem que a exposição à luz solar logo nas primeiras horas da manhã ajuda a regular o relógio biológico para as próximas 24 horas. Quinze minutos devem bastar para avisar ao cérebro que “estou pronto para este dia”.