Cuidar de animais não é algo simples, mas sim uma tarefa que requer atenção e zelo. E se, para quem tem bichinho de estimação em casa pode ser trabalhoso ter de dar atenção a apenas um, imagina se esse número chegar a 3 mil? Essa é a média de animais em uma fazenda de pequeno porte. Em uma de médio porte, esse número pode superar os 40 mil.

E é exatamente para ajudar esses produtores que o JetBov existe. A startup, nascida em 2014, surgiu da identificação de algumas dores específicas desse mercado, enfrentadas por criadores de gado da própria família de Xisto Alves, cofundador e CEO da empresa.

“Por acompanhar dificuldades e necessidades desses criadores, surgiu a ideia de desenvolver algo que resolvesse alguns problemas com foco na gestão do negócio da fazenda, bem como pudesse promover a integração do pecuarista dentro da cadeia de produção de carne”, explica Alves, em entrevista ao The BRIEF. Contudo, identificar o problema foi apenas o começo.

Para se tornar parceira dos produtores de gado, a companhia criou uma plataforma especializada no cuidado com o pecuarista. A tecnologia fornece recursos para controle do animal e gestão da fazenda. Assim, disponibiliza ferramentas para garantir o controle de produção, inventário, parte sanitária, controle de vacinas, entre outros. “Fornecemos uma gestão bem completa da fazenda, que aponta onde o cliente está ganhando ou perdendo dinheiro”, afirma Alves.

Além dos cálculos complexos para facilitar o gerenciamento, a plataforma entrega análise de informações para ajudar o cliente na tomada de decisões. “Ele [o pecuarista] começa a ter dados para responder questões que vão desde “qual é a melhor hora para comprar ou vender?” até “se eu ficar mais tempo com esse rebanho, qual será o resultado?”, explica o empreendedor. “Temos toda a inteligência para chegar ao melhor retorno com relação a tudo o que ele está investindo.”

Além desses recursos, o JetBov oferece suporte ao usuário, para prestar auxílio quando há dúvidas, consultoria, treinamentos e uma comunidade, que conecta o produtor a cooperativas, a outros produtores e ao ecossistema de pecuária no geral.

A empresa conta com parcerias estratégicas, como companhias de identificação animal, de consultoria com foco nesse segmento, empresas que fazem equipamentos de medição de peso com balanças eletrônicas acopladas para leitura automática, facilitando a coleta de dados. Além disso, eles são associados ao Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS) e mantêm parcerias de estudos e pesquisas na área de bovinocultura com o Instituto Federal Catarinense e com a ESALQTec Incubadora Tecnológica, órgão que atua junto à ESALQ/USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz/USP).

O JetBov também apresenta uma parceria com a Hughes, fornecedora de internet via satélite, para levar conectividade às fazendas que ainda não possuem internet.

Sem laço na mão, só tecnologia: a equipe da JetBov

Como tudo começou

Em 2014, Alves trabalhava em uma empresa que prestava consultoria para identificar possíveis melhorias em processos, propor aumento de desempenho, entre outras implementações — expertise essa que depois foi bastante útil para criar o JetBov.

“Saí naquela época para começar esse projeto [do JetBov] e, desde o início, seguimos uma linha startup de validações”, conta o empresário, que fundou a companhia com o sócio Giovani Zamboni, atual CTO e responsável pelo desenvolvimento do backend da plataforma. Os executivos, então, trabalharam para validar se aquelas dores identificadas com produtores da família também faziam sentido para pecuaristas de outras regiões.

Para confirmar as hipóteses, a startup lançou o seu primeiro MVP (mínimo produto viável), em maio de 2015. Depois disso, ainda no mesmo ano, o JetBov foi finalista do programa InovAtiva Brasil, do Ministério de Desenvolvimento Indústria e Comércio (MDIC), o que ajudou a empresa a consolidar ideias e clientes. “Estávamos no período de validação de ideias, e participar do InovAtiva encaixou bem com o momento pelo qual estávamos passando”, comenta Alves.

Depois disso, a companhia foi uma das selecionadas para ser acelerada pela ACE. “Quando começamos a aceleração, tínhamos em torno de 10 clientes, sendo 3 da família”, comenta Alves. “Esses últimos não contam”, brinca o executivo. Após a aceleração, eles conquistaram uma cartela com mais de 80 clientes, bem como uma rodada de investimentos no valor de R$ 500 mil.

Hoje, eles não revelam quantos pecuaristas atendem, mas a mensuração do sucesso é feita por cabeças de gado gerenciadas pela plataforma  e essas ultrapassam a marca de 230 mil. E o dinheiro obtido está sendo utilizado para melhorar o negócio.

Planilha de Excel é coisa do passado

Com a plataforma online consolidada, a startup apostou na mobilidade e, em fevereiro do ano passado, lançou uma aplicação para ajudar o produtor na gestão do negócio.

Alves explica que o app lembra um pouco o WhatsApp e funciona como um caderninho de anotações, onde o responsável pela fazenda pode colocar tudo o que precisa. “O aplicativo não é um espelho da plataforma, ele tem uma função específica de coletar dados. Ele é mais simplificado e possui tudo que é necessário para o produtor”, explica Alves, complementando que, por meio da ferramenta, é possível incluir informações como atualização de peso dos animais, vacinas que estão sendo aplicadas e quais animais estão recebendo o medicamento, se o gado está sendo movido para outro local, entre outras informações pertinentes ao gerenciamento da fazenda.

Absolutamente tudo é minuciosamente marcado e, posteriormente, sincronizado com a plataforma online. “O pecuarista realiza a coleta por meio do aplicativo offline, onde tudo fica armazenado. Quando ele termina o que precisava ser feito no dia, pode sincronizar todos os dados com a plataforma para fazer a gestão [da fazenda]”, observa, completando que as informações ficam armazenadas na nuvem.

A vantagem é que, coletando dados de forma remota, ele nunca precisará enfrentar problemas com conexão para guardar as informações de que precisa enquanto passeia pelo terreno e verifica os animais.

A estrada pela frente

Apesar de ter toda a parte tecnológica, esse nunca foi o principal desafio da empresa  diferente de muitas startups que começam sem um background de TI, o JetBov pode contar com toda a expertise de Zamboni, que tem 20 anos de experiência na área e passagem por empresas como ContaAzul, coordenando o time de DevOPs, bem como em empresas como NeoGrid e Datasul.

O desafio maior, na opinião de Alves, foi encaixar a solução no perfil de cliente que eles queriam atingir. “Entendo que o maior desafio que enfrentamos foi nos diferenciar na maneira como entregamos tudo isso ao pecuarista, para que fosse algo prático que o ajudasse no sentido de não onerar o tempo dele, de coletar dados e realmente auxiliar na tomada de decisão e no desenvolvimento dele como empresa”, comenta o executivo.

Ou seja, ser um braço de tecnologia para quem muitas vezes sequer tem uma unidade de TI para dar suporte, bem como os ajudar a administrar o negócio de maneira mais fácil. Para isso, usaram a técnica de design thinking a fim de entender e validar ideias e desenvolver o negócio da maneira mais adequada.

O equilíbrio casa e trabalho também é outro desafio que nem todo mundo comenta, mas que é enfrentado por muitos fundadores de startups. “[Todo empreendedor] tem de dedicar muito mais horas do dia para o seu negócio”, comenta Alves.

Isso resulta em uma série de sacrifícios, incluindo tempo longe da família; quem olha de fora não consegue enxergar o que se passa nos bastidores. “Esse é o outro lado com que um empreendedor tem de conseguir lidar”, aponta. Fora a remuneração, que pode ser até mesmo menor do que a recebida antes, com um emprego tradicional, comenta o executivo.

Como dica para quem está iniciando nos negócios, Alves afirma que dados são o foco. “Quanto mais dados, mais informações para o seu negócio ter melhor direcionamento. E isso é fundamental”, observa.

Na medida

A produção de carne bovina no Brasil tem um potencial considerável para os próximos anos, com crescimento projetado de 2,1% ao ano, de acordo com dados do relatório "Projeções do Agronegócio 2016/17 a 2026/27", realizado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). O levantamento aponta também que o setor deve apresentar “intenso crescimento” na próxima década.

Para se ter uma ideia do potencial, neste mês, por exemplo, o Brasil fechou um acordo com o governo de Myanmar, o qual prevê a exportação de 20 mil cabeças de gado por ano ao país asiático, de acordo com o Mapa. Além disso, projeções do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) de 2017 apontam o Brasil como primeiro exportador de carne bovina em 2026. Sim, esse mercado promete.

A plataforma do JetBov pode ajudar os pecuaristas a se fortalecerem e serem mais competitivos nesse sentido, integrando-os, bem como possibilitando que eles tenham o retorno esperado.

Assim, a companhia está se desenvolvendo com o objetivo se tornar uma espécie de cooperativa digital, “para dar cada vez mais poder para o produtor, para que ele possa agregar valor à sua produção”, encerra Alves.