Paul McDonald, cofundador e CEO da startup Bodega, especializada em fornecimento de mantimentos, esperava que o lançamento da empresa desse o que falar. A proposta da companhia, como revelada no seu lançamento, era trazer alimentos para ainda mais perto da casa do consumidor, tudo por meio de umas vending machines diferentonas.

“Com a Bodega, trazemos a mesma facilidade e conveniência para aqueles de nós que não têm uma loja na esquina, colocando uma delas onde você mora ou trabalha. Criamos pequenas lojas automáticas abastecidas com os itens essenciais de que você precisa e exatamente onde você precisa – seja lanches na academia ou artigos de higiene pessoal e utensílios domésticos no lobby do seu apartamento”, dizia o post no blog oficial do serviço.

Um dia depois, o anúncio realmente repercutiu – mas não do jeito que o executivo imaginava. “Hoje anunciamos a Bodega e, enquanto aguardávamos por uma grande resposta, a reação que recebemos nesta manhã certamente não era o que esperávamos”, disse ele em uma publicação feita no Medium.

Epa, o que rolou?

Para entender exatamente o que aconteceu, temos que conhecer primeiro a origem do nome da empresa. As bodegas, para quem não sabe, são pequenas lojas de conveniência nos EUA que geralmente pertencem a famílias latinas ou hispânicas. Assim como a startup, sua especialidade é a oferta de mantimentos de um jeito simples e barato.

Dependendo da região, há diversos empreendimentos desse tipo espalhados em cada esquina da cidade. O intuito, claro, é estar perto do cliente, sem que ele precise se movimentar por quilômetros para conseguir o que quer. No entanto, mais do que isso, as bodegas representam toda uma cultura já bastante difundida pelo país. Com isso, fica fácil entender como o público não recebeu muito bem o anúncio da nova empresa. Afinal, ele dava a entender que a startup era uma evolução desse conceito e que a tradição das Bodegas era uma coisa do passado.

“Compras não têm de significar um passeio de carro para um edifício de 3 mil metros quadrados preenchido com milhares de produtos que você nunca vai comprar, mas sim uma curta caminhada para uma pequena loja abastecida com o que você precisa. Não há filas, nenhum carrinho de compras desajeitado, nada de ter de descobrir como deslizar ou inserir ou tocar para pagar, sem cartões de fidelidade e sem folhas de recibos ou cupons”, dizia o texto de anúncio da companhia.

Depois dessa pequena contextualização, você pode imaginar a enxurrada de respostas negativas que a empresa teve, não é mesmo?

O que mais pesou

Alguns pontos se tornaram um verdadeiro combustível para a ira da galera. O primeiro deles é que bodega é um nome tradicional. Chamar o empreendimento de Bodega, por exemplo, foi considerado uma forma de apropriação cultural. Afinal, como foi explicado, há toda uma cultura por trás dessas lojas de serviços. Ou seja: para muita gente, as bodegas não são apenas uma loja, mas sim um ponto de encontro ou um estilo de vida. Pelo menos, essa é a opinião do internauta porto-riquenho John Verdejo.

Comentando o caso, ele diz: "Para você, bodega pode não significar nada mais do que uma nova palavra adquirida quando se mudou para a cidade, algo cool e bacana para se falar quando quiser impressionar amigos e investidores. No entanto, para muitos de nós, é cultura”. Verdejo acredita que esses são espaços "que conectam você ao lugar de nascimento dos seus pais" e onde "provavelmente abuela e abuelo se conheceram quando chegaram à América”. “A bodega está intimamente ligada à nossa identidade, nossa essência", completa.

Outra crítica é que a empresa teria dado a entender que queria não apenas se apropriar do nome, mas eliminar essa concorrência convencional. O CEO rebateu esse argumento dizendo que “nunca tivemos a intenção de competir com as bodegas reais ou com lojas de conveniência do tipo”. Apesar disso, a repórter Elizabeth Segran, da Fast Company, reforçou que eles disseram sim, durante entrevista ao site, que a intenção era acabar com lojas físicas porque elas seriam “ultrapassadas”.

Posteriormente, porém, McDonald disse que não era bem assim. “Desafiar a loja da esquina urbana não é e nunca foi nosso objetivo. As lojas de esquina foram instaladas em seus bairros por gerações. Eles armazenam milhares de itens, muito mais do que poderíamos colocar em algumas prateleiras”, afirmou, dizendo ainda que a ideia do seu negócio é "trazer o comércio para locais onde ele atualmente não existe".

Escorregada feia

Pois é, os criadores da Botega admitiram que erraram feio (e rude). “O nome provocou uma onda de críticas nas mídias sociais muito além do que imaginávamos. Quando surgimos com a ideia de chamar a empresa de Bodega, reconhecemos que existia o risco de ser interpretada como uma apropriação indevida. Fizemos a lição de casa – falando com nova-iorquinos, especialistas em marcas e até fazendo pesquisas para perguntar se o nome ofenderia alguém –, mas talvez não tenhamos feito as perguntas certas para as pessoas certas”, admitiram.

Por fim, eles pediram desculpas, bem como se comprometeram “a rever os comentários e a compreender as reações de hoje”. “Nosso objetivo é construir um negócio duradouro e criativo e queremos garantir que nosso nome – entre outras decisões que fazemos – reflita esses valores. Estamos aqui para aprender e melhorar e esperamos trazer uma experiência de varejo útil e nova para as pessoas”, encerrou o CEO.